 as­pec­to teatral da ce­na, di­fundin­do em to­da ela um cer­to col­ori­do va­poroso de sur­preen­dente efeito artís­ti­co.

  As va­gas onde a luz se que­bra­va em mul­ti­pli­ca­dos e cin­ti­lantes re­flex­os es­ten­di­am-​se lan­guida­mente pela pra­ia, com um bran­do mur­múrio. Das pe­que­nas cataratas que, ao do­brarem-​se so­bre si, pro­duzi­am as on­das lev­an­ta­va-​se um or­val­ho den­so que re­trata­va a luz num íris desvaneci­do. Alve­javam ao lon­go da cos­ta flo­cos de es­puma que, num lento re­fluxo, de­sci­am de no­vo às águas, até que out­ra va­ga os im­pelia mais longe. 

  Tu­do era solidão! No mar, na pra­ia e no céu! O mar sem um bar­co, a pra­ia sem uma habitação, o céu sem uma es­trela! E a Lua, co­mo uma lâm­pa­da mor­tiça pen­dente da vas­ta abóba­da dum tem­plo de­ser­to, alu­mi­ava es­ta ma­jestosa e im­po­nente solidão! 

  Pe­dro cam­in­ha­va rápi­do por este vas­to are­al da pra­ia e nem sen­tia o seu iso­la­men­to, que povoa­da lev­ava a fan­ta­sia por mil im­agens e pen­sa­men­tos en­con­tra­dos. 

  Era noite avança­da quan­do chegou à vista dos pal­heiros de Es­pin­ho. 

  Pal­pi­ta­va-​lhe de an­siedade o coração ao aprox­imar-​se daque­le lu­gar. 

  Aque­las som­bras es­curas em que se desta­cavam no hor­izonte, tingi­do de um azul-​páli­do pe­los re­flex­os do lu­ar, os pal­heiros des­ta parte do litoral en­volvi­am uma mul­her que, sem o sus­peitar, se trans­for­mara em ob­jec­to dum cul­to fer­voroso para um mance­bo em cu­jo coração virgem pela primeira vez se ateara a chama ar­dente de uma paixão defini­da. 

  Pela primeira vez Pe­dro afroux­ou a ve­loci­dade dos seus pas­sos e parou levan­do a mão ao coração co­mo para lhe sen­tir as pal­pi­tações ag­itadas e ir­reg­ulares. 

  Dom­inan­do es­ta co­moção mo­men­tânea, prosseguiu, porém, na sua mar­cha e pen­etrou no cen­tro da povoação. Es­ta­va quase de­ser­ta àquela ho­ra. Pe­dro cor­reu, co­mo em delírio, to­das aque­las es­tre­itas e tor­tu­osas ruas de areia, que seguiam por en­tre os pal­heiros, e parou em to­da a parte onde imag­ina­va en­con­trar aque­la que tão an­siosa­mente procu­ra­va. 

  Em ca­da som­bra que se desta­ca­va no vão es­clare­ci­do du­ma janela, supun­ha ver o per­fil da mul­her a quem con­sagrara to­dos os afec­tos do coração, to­dos os seus pen­sa­men­tos e as­pi­rações. 

  Can­sou-​o es­ta in­útil pesquisa, de­salen­tou-​o este bal­da­do procu­rar, e quase se deixou cair, ex­ten­ua­do de forças e de es­per­anças, jun­to à por­ta de um pe­queno pal­heiro situ­ado no ex­tremo opos­to da povoação. As­sim per­maneceu al­guns min­utos sem con­sciên­cia do que se pas­sa­va em torno de si, pen­san­do no des­ti­no da sua paixão in­sen­sa­ta e ab­sorvi­do por amar­gas ideias de que tan­tas vezes se lhe al­imen­ta­va a imag­inação. 

  Pouco a pouco prin­ci­pi­ou a des­per­tar-​lhe a atenção, até ali poderosa­mente dis­traí­da, um ru­mor de vozes que vin­ham do in­te­ri­or do pal­heiro à por­ta do qual se en­costara. Uma das que fala­va não lhe era de­scon­heci­da e es­ta cir­cun­stân­cia oper­ou uma salu­tar di­ver­são naque­le pre­ocu­pa­do pen­sa­men­to, afu­gen­tan­do-​lhe por in­stantes o tro­pel de ideias ne­gras que o as­som­bravam. 

  Apli­can­do o ou­vi­do à por­ta de­trás da qual lhe chega­va aque­le sus­sur­ro, Pe­dro pôs-​se a es­cu­tar, com mal reprim­ida cu­riosi­dade, o que se dizia lá den­tro. 

  -Sabes que a Madama nos to­mou out­ra vez o bar­co para to­do o resto da se­mana? -dizia uma das vozes. 

  -Out­ra vez?! Julguei que des­de aque­la noite de ven­ta­nia lhe pas­sara o gos­to por estes pas­seios. 

  -Em quan­to a mim aqui­lo é ma­nia. Pois n