ão vês tu co­mo ela não aproveitou as be­las noitas que têm es­ta­do e ago­ra diz que quer o bar­co, quer cho­va, quer vente?...

  -Es­tas es­trangeiras têm destas coisas. Ela, pe­los mo­dos, é al­gu­ma prince­sa; pa­ga que nem uma rain­ha. 

  -O sor Mor­ga­do que aqui es­teve a ban­hos o ano pas­sa­do disse no out­ro dia que a con­hece do Por­to. É uma fi­dal­ga es­trangeira que an­da a vi­ajar. 

  -Há gente que vem a este mun­do só para pas­sar vi­da de rosas. 

  -E abor­recem-​se dele. É ver co­mo ela acha gos­to naqui­lo que nos dá pe­na a nós out­ros. Deu-​lhe para can­tar no mar! 

  -E ol­ha que lá is­so!... Sem­pre can­ta que é um gos­to ou­vi-​la. 

  -Mas para que lhe havia de dar! Can­tar no mar! A falar a ver­dade... Aqui­lo nem sei o que parece! 

  -Deixa lá, homem. Para nós tem si­do uma providên­cia; às más pescas que tem havi­do, de muito nos têm vali­do os tais pas­seios da Madama. 

  -Mas tam­bém caro pag­amos ess­es lu­cros, que quan­do ela em­preende de­mor­ar-​se por lá, nem que a lev­ásse­mos a Lis­boa a sat­is­faríamos. 

  -E en­tão não há mar que a in­timide. Uma mul­her tão an­imosa ain­da es­tou para ver. 

  -Sem­pre é es­trangeira! Será ela cristã? 

  -Ih! Não vês co­mo fala tan­to na Virgem? E as es­mo­las que dá! Não, is­so, boa sen­ho­ra é ela. Ver­dade, ver­dade. 

  -Is­so é. Tirante lá aque­la vene­ta!... 

  -Quem tem din­heiro nem sabe em que o há-​de gas­tar. 

  -Quan­to tem­po se con­ser­vará ela ain­da aqui na pra­ia? 

  -Disse-​me que até ao fim da se­mana. De­pois vai para o Por­to. 

  -Nem eu sei co­mo se tem de­mor­ado tan­to, ago­ra que não é tem­po de ban­hos, e tu­do is­to es­tá de­ser­to. 

  Pe­dro es­cu­ta­va, com in­de­scritív­el avidez, este diál­ogo dos pescadores; es­força­va-​se por não perder uma só das par­tic­ular­idades referi­das nele, rel­ati­vas à de­scon­heci­da vi­ajante. 

  Nas dis­posições de es­píri­to em que o apaixon­ado moço es­ta­va naque­le mo­men­to, o nome só da pes­soa que as­sim nos traz, co­mo os dele, avas­sal­ados os pen­sa­men­tos, não é es­cu­ta­do sem uma ex­trema e agradáv­el co­moção. 

  Recol­hia, co­mo rev­elações pre­ciosas, tu­do quan­to diziam os pescadores e ar­dia em de­se­jos de lh­es di­ri­gir mil­hares de in­ter­ro­gações a re­speito da mul­her que eles tin­ham a ven­tu­ra de trans­portar no seu bar­co às ho­ras solenes da noite e pela ma­jestosa solidão do mar. Porque preço não pa­garia ele esse in­ve­ja­do praz­er!

  Des­ta quase ex­táti­ca con­tem­plação foi fi­nal­mente ar­rebata­do pelas vozes dum pi­ano que par­ti­am do pal­heiro próx­imo. Pe­dro es­treme­ceu, es­cu­tan­do os prelú­dios que uma mão ex­erci­ta­da ex­traía das teclas sono­ras. 

  Pou­cas vezes, se al­gu­mas, Pe­dro tin­ha ou­vi­do um pi­ano. Aque­les sons en­can­tavam-​no, es­tim­ulavam-​lhe os vivís­si­mos in­stin­tos mu­si­cais que pos­suía, ig­no­ran­do-​os, es­sa al­ma no­bre de artista, cri­ada para grandes con­cepções, que o des­ti­no im­pos­si­bil­ita­va de re­alizar, con­de­nan­do-​a to­tal­mente a su­cumbir de con­tín­uo nos es­forços a que, por in­stin­to, obe­de­cia de­scon­hecen­do sem­pre o al­vo em que eles se con­ver­giam. 

  De­pois teve um pressen­ti­men­to de que a mão que des­per­ta­va do silên­cio da noite aque­la suave har­mo­nia era a da mul­her que ele procu­rara. 

  Que febril ag­itação en­tão a sua! Era uma quase ver­tigem o que ele ex­per­imen­ta­va! 

  -Ela aí prin­ci­pi­ou a can­tar. E en­tão é co­mo os roux­inóis... Can­ta só de noite -disse um dos pescadores cu­jo diál­ogo Pe­dro es­tivera es­cu­tan­do. 

  En­tão a mes­ma voz, que tan­tas vezes o apaix