on­ado moço es­cu­tara na pra­ia, e que por muito tem­po jul­gara um mis­tério do mar', prin­ci­pi­ou can­tan­do, acom­pan­ha­da, des­ta vez, pe­los acordes sonorosos do pi­ano, que mais a fazia so­bres­sair. 

  Ago­ra o es­ti­lo da músi­ca era suave e melancóli­co; era a canção da rosa, a ária for­mosís­si­ma da qual Flo­tow fez o mo­ti­vo de to­da a sua ópera, a Mar­ta, e que raros têm o poder de es­cu­tar sem que se sin­tam pos­suí­dos du­ma pro­fun­da co­moção e com dis­posições para lá­gri­mas. 

  A artista can­ta­va-​a na le­tra ital­iana da ópera, cu­ja tradução é, aprox­imada­mente, a seguinte: 

  Aqui, só, virgínea rosa 

  Co­mo podes flo­rescer! 

  In­da em botão des­di­tosa, 

  E já próx­ima a mor­rer! 

  Em vez do or­val­ho da vi­da 

  Cres­ta-​te a neve e o tufão, 

  E já so­bre a haste pen­di­da 

  In­cli­nas a fronte ao chão! 

  Es­cu­tan­do aque­la músi­ca elegía­ca e sen­ti­da, Pe­dro ex­per­imen­tou uma co­moção ain­da mais pro­fun­da que das out­ras vezes; não com­preen­den­do a le­tra ital­iana do can­to, tal era a ex­pressão da can­to­ra e a elo­quên­cia da músi­ca que ele ou­via-​a com in­ten­so recol­hi­men­to, co­mo se es­cu­tasse a voz do seu próprio coração. Es­que­cia-​se de tu­do, co­mo nos es­que­ce­mos, lev­ados pela cor­rente dos nos­sos pen­sa­men­tos, a es­cu­tar a nos­sa própria con­sciên­cia. 

  Quan­do as úl­ti­mas no­tas deste can­to magoa­do se desvanece­ram, con­fundin­do-​se com o mur­múrio do mar, Pe­dro, voltan­do a si do êx­tase em que es­ta músi­ca o ar­rebatara, sen­tiu que as lá­gri­mas lhe ban­havam as faces. 

  -Que é is­to, meu Deus? -ex­clam­ou o po­bre ado­les­cente com um acen­to de de­ses­pero. -Porque me faz chorar es­ta músi­ca? Porque me sin­to en­tris­te­cer sem­pre que a ouço can­tar, a es­ta mul­her que não con­heço, que nem se­quer ain­da a vi? Que homem sou eu, tão sin­gu­lar! Je­sus, Je­sus! Será is­to uma lou­cu­ra? 

  Tu­do na pra­ia re­caíra em pro­fun­do silên­cio. Pe­dro, com os ol­hos pos­tos na janela ob­scu­ra, con­ser­va­va-​se imóv­el, co­mo se temesse desvanecer uma visão de­li­ciosa ou quisesse recol­her as úl­ti­mas e im­per­cep­tíveis vi­brações sono­ras que um sen­ti­do su­pe­ri­or­mente or­ga­ni­za­do lhe per­mi­tia ain­da apre­ciar. 

  Prin­cip­ia­va a tin­gir-​se o hor­izonte dos ru­bores da madru­ga­da e Pe­dro em vão se es­força­va por se ar­ran­car dali. Pren­dia-​o uma es­per­ança; a de en­tr­ev­er, por in­stantes que fos­se, a mul­her por quem con­ce­bera tão vi­olen­ta paixão; in­sta­va com ele, para par­tir, aque­la es­pé­cie de pu­dor do coração, com que de to­das as vis­tas procu­ramos es­con­der os menores vestí­gios dum primeiro amor, tan­to mais ar­den­te­mente quan­to maior é a sua can­dura e quan­to mais dig­no ele é da no­breza de sen­ti­men­tos próprios da ju­ven­tude. 

  Era já man­hã al­ta quan­do Pe­dro voltou ao Fu­radouro. 

  No­taram a sua fal­ta na com­pan­ha, que à ho­ra do cos­tume se fiz­era ao mar e, se­gun­do a lei, foi mul­ta­do na parte do quin­hão que lhe to­ca­va. 

  Na noite desse dia re­pro­duz­iu-​se para Pe­dro a aparição do mar. 

  Foi pela al­tura dos pal­heiros, en­tão ain­da de­ser­tos, de Mace­da e Corte­gaça, que ele a veio en­con­trar. 

  A noite es­ta­va tran­quila, o mar sereno. A clar­idade da Lua, ape­nas ve­la­da por um trans­par­ente cen­dal de tenuís­si­ma ne­bri­na, per­mi­tiu dis­tin­guir o vul­to da can­to­ra que, re­costa­da à proa, en­toa­va uma músi­ca cheia de en­tu­si­as­mo e en­er­gia, uma es­pé­cie de hi­no pa­trióti­co, a cu­jas palavras ela sabia co­mu­nicar to­do o fer­vor do seu ân­