ido, pre­so às suas crenças e pre­con­ceitos, sentin­do o es­ta­do de Pe­dro, a quem de ca­da vez mais se sen­tia afeiçoa­do. 

  Na opinião do vel­ho, opinião que ele não rev­ela­va para não ex­ci­tar ter­rores ou causar maiores des­graças, era ev­idente ser tu­do aqui­lo male­fí­cios da sereia. Ao que já sou­bera pela co­mu­ni­cação que lhe tin­ha feito Pe­dro, acresceu uma no­va cir­cun­stân­cia, que muito in­fluiu para cor­rob­orar es­ta crença no ân­imo do vel­ho pescador. 

  É que ele tam­bém a ou­vi­ra, tam­bém em uma das úl­ti­mas noites lhe es­cu­tara o can­to e não lhe fi­cou dúvi­da que era de sereia, pois nun­ca tin­ha ou­vi­do mul­her can­tar as­sim e muito mais no mar e por tais ho­ras da noite. 

  O vel­ho tin­ha si­do obri­ga­do a ir a Es­pin­ho e, ao voltar, aí próx­imo da capela da Sen­ho­ra Apare­ci­da, prin­ci­pi­ou a ou­vir aque­le can­to que o so­bres­saltou; apli­cou o ou­vi­do e perce­beu-​o mais dis­tante. O vel­ho fi­cou ater­ra­do! Quan­to mais in­vol­un­tari­amente o deleita­va aque­la músi­ca, tan­to maior vul­to tomavam as suas apreen­sões. Con­sid­er­ava-​se já per­di­do, mas teve uma in­spi­ração sal­vado­ra: cor­reu para a pe­que­na er­mi­da, que lhe es­ta­va próx­ima, e, ajoel­han­do-​se na en­tra­da, pôs o pen­sa­men­to na Virgem e serviu-​se do ex­pe­di­ente que, se­gun­do a fábu­la, tin­ha uti­liza­do um com­pan­heiro de Uliss­es em uma situ­ação idên­ti­ca. A práti­ca sur­tiu efeito. Quan­do o vel­ho destapou os ou­vi­dos, já não se perce­bia o can­to; tin­ha, pois, es­con­ju­ra­do o male­fí­cio. 

  Prosseguiu no seu cam­in­ho, mas sem­pre in­qui­eto. 

  Nes­sa noite não pôde con­cil­iar o sono. Volvia-​se e re­volvia-​se no leito, fecha­va os ol­hos e es­con­dia a cabeça no trav­es­seiro…De­balde…Era sem­pre aque­la ideia a afu­gen­tar-​lhe o sono; afig­ura­va-​se-​lhe ain­da ou­vir aque­la voz e o po­bre vel­ho prin­cip­ia­va a imag­inar-​se en­feitiça­do. 

  Fez o sinal da cruz, en­comen­dou-​se à Virgem e ao  Pe­dro-​San­to que, antes de ser pa­pa, fo­ra pescador; mas parece que des­ta vez tin­ha de ser in­efi­caz tão valiosa in­ter­cessão. De­pois lem­bra­va-​se de Pe­dro, o bom do vel­ho, e com­preen­dia co­mo ele de­via an­dar per­di­do, quan­do a si próprio nem a re­flexão nem o pe­so dos anos lhe foram preser­va­ti­vo con­tra a in­fluên­cia daque­la en­de­mon­in­ha­da ten­ta­do­ra. 

  Se, próx­imo à man­hã, João Cabaça con­seguiu dormir, foi de um sono tão ag­ita­do, tão cheio de son­hos febris e as­sus­ta­dores que, longe de o restau­rar, o fatigou... 

  Quan­do apare­ceu di­ante dos da com­pan­ha, per­gun­taram-​lhe de to­dos os la­dos se es­ta­va doente. 

  Es­ta per­gun­ta de­sagradou ao vel­ho. 

  -Doente! E que me acham vocês para o pen­sarem? 

  -Es­tá amare­lo, o ti' Cabaça, que nem uma cidra e tem cara de quem li­dou com bruxas. 

  -Malditas, malditas! Só de as ou­vir uma vez, já as­sim me puser­am! -ex­clam­ou o vel­ho, não po­den­do reprim­ir uma in­dig­nação. 

  -Quem! Quem? -per­gun­taram várias vozes com grande cu­riosi­dade. 

  João Cabaça, ape­nas re­spon­deu: 

  -Ninguém, ninguém. Eu cá me en­ten­do. 

  Ve­jam co­mo de­ve­ria ter adquiri­do firmeza a crença de João Cabaça, quan­do jun­tara à ex­per­iên­cia de es­tran­hos a sua própria ex­per­iên­cia. 

  Procurou Pe­dro e, des­ta vez, foi elo­quente na prédi­ca em que lhe pin­tou com as mais vi­vas cores os ar­tifí­cios das sereias, e pediu-​lhe que re­sis­tisse àquela ten­tação que lhe viria a ser fu­nes­ta. Que ele próprio, por a ter ou­vi­do uma noite, se sen­ti­ra in­co­moda­do e que, por­tan­to, tomasse ten­to, que mais su­jei­ta 