ao peri­go an­da­va a ju­ven­tude do que a idade em que alve­jam os ca­be­los e a fronte en­ruga e ver­ga sob a pressão dos anos. 

  Es­tas e out­ras muitas coisas dizia o bom vel­ho, mas o seu com­pan­heiro es­cu­ta­va-​as dis­traí­do e provavel­mente sem ter se­quer con­sciên­cia do que elas sig­nifi­cavam. A ab­stracção de Pe­dro au­men­tara de pon­to a faz­er jul­gar a to­dos que ele trans­pusera as ra­ias da lou­cu­ra. 

  Tu­do fazia maquinal­mente; se re­spon­dia às per­gun­tas que lhe di­ri­giam era co­mo se as não hou­vesse com­preen­di­do. 

  Es­ta dis­tracção con­tin­ua­da, que o al­hea­va ao tra­to usu­al dos seus com­pan­heiros, acabou por o iso­lar com­ple­ta­mente, pois to­dos pare­ci­am ex­per­imen­tar um cer­to afas­ta­men­to por aque­le carác­ter ex­ces­si­va­mente con­cen­tra­do e tão su­jeito a aber­rações que se assemel­havam a uma ver­dadeira lou­cu­ra. 

  Ape­sar das re­comen­dações de João Cabaça, já a noite veio en­con­trar a Pe­dro no seu pos­to de vi­gia. 

  A tarde es­tivera mag­ní­fi­ca.

  No fir­ma­men­to límpi­do não se for­mara uma só dessas pe­que­nas nu­vens que são o primeiro as­so­mo da cólera dos el­emen­tos. Reina­va uma cal­maria com­ple­ta ain­da no princí­pio da noite. 

  A at­mos­fera tép­ida e as­fixi­ante não era ag­ita­da pela menor vi­ração; as on­das, co­mo que dom­inadas pela ger­al lan­guidez da na­tureza, es­ten­di­am-​se lenta­mente na pra­ia com suave mur­múrio. 

  E, con­tu­do, no meio des­ta tran­quil­idade, Pe­dro sen­tia-​se in­qui­eto, co­mo se al­gu­ma coisa pressen­tisse ameaçan­do-​o dum peri­go la­tente. As or­ga­ni­za­ções im­pres­sionáveis são for­madas por es­tas mis­te­riosas per­cepções, que se não ex­pli­cam. 

  Por um in­stin­to, semel­hante ao das aves que volte iam so­bre as pra­ias ain­da quan­do a tem­pes­tade es­tá longe, mas que elas pressen­tem já, não as ilu­dem as aparên­cias de bo­nança que o céu às vezes ofer­ece; o que quer que se­ja de in­visív­el lh­es prog­nos­ti­ca as tor­men­tas. 

  Aonde se en­gana a ex­per­iên­cia dos anos, re­al­iza-​a a voz proféti­ca destes in­ex­plicáveis in­stin­tos. 

  Nes­ta noite Pe­dro sen­tia-​se triste, e ex­per­imen­ta­va um se­cre­to me­do que a si próprio ad­mi­ra­va. 

  Não sei o que de­sco­bria no cin­ti­lar das es­tre­las, que o as­sus­ta­va; a voz das va­gas, na sua aparente suavi­dade, pare­cia-​lhe mur­mu­rar ameaças sur­das; o sor­riso da na­tureza dir-​se-​ia um sor­riso traiçoeiro; não lhe in­fun­dia con­fi­ança. 

  Passea­va na pra­ia, com os ol­hos fi­tos naque­la imen­sa su­per­fí­cie líqui­da donde lhe tin­ham vin­do os úni­cos mo­men­tos de fe­li­ci­dade que en­tre­vi­ra na vi­da. Mas com­prim­ia-​se-​lhe des­ta vez o coração res­pi­ran­do a in­fla­ma­da at­mos­fera daque­la noite de sin­is­tra in­fluên­cia. 

  Es­ta vez os temores que ressen­tia, na aparên­cia mal fun­da­dos, pouco a pouco os prin­ci­pi­ou a jus­ti­ficar o no­vo as­pec­to que foram toman­do o mar e o fir­ma­men­to. 

  Levan­tou-​se do sul uma vi­ração, ao princí­pio bran­da, mas que adquir­iu grad­ual­mente mais in­ten­si­dade, tur­ban­do a limpi­dez do céu com um sem-​número de pe­que­nas nu­vens que coal­havam a imen­sa abóba­da que se de­sco­bria dali. A for­ma, a dis­posição destas nu­vens era dum agoiro pouco se­guro para os ol­hos amestra­dos. Pe­dro sur­preen­deu to­da a sig­nifi­cação destes sin­tomas do céu  e via con­fir­ma­dos por eles os seus va­gos ter­rores de há pouco. 

  Temia já que o bar­co, cu­jo aparec­imen­to ele tão ar­den­te­mente es­per­ava, não viesse aque­la noite, e só com es­ta lem­brança sen­tia-​se des