fale­cer. 

  Era co­mo se aque­la es­per­ança, se aque­le go­zo de mo­men­tos fos­se o úni­co laço que já ago­ra o pren­dia à vi­da. 

  Pen­sar que lhe pode­ria fal­tar era para ele a origem de uma tris­teza tão ín­ti­ma, de uma tão ab­so­lu­ta de­ses­per­ança, que na morte an­te­via o úni­co alívio a es­per­ar, de­pois de tão do­lorosa de­silusão. 

  Mas, no meio destas apreen­sões, pud­er­am seus ol­hos de­sco­brir, ape­sar da cer­ração ca­da vez mais den­sa que prin­cip­ia­va a ocul­tar-​lhe o mar, uma for­ma que lhe pare­ceu a do bar­co que aguar­da­va com tan­to fer­vor. 

  Tré­mu­lo de an­siedade in­dizív­el, se aprox­imou da beira-​mar, fazen­do ex­ces­sivos es­forços, para devas­sar o fun­do im­pen­etráv­el daque­la es­curidão. 

  O coração dizia-​lhe que era aque­la a aparição pela qual es­per­ava, no seu pal­pi­tar an­si­ado, e na mis­te­riosa sen­sação que ressen­tia. 

  De re­pente, co­mo re­spon­den­do à táci­ta in­ter­ro­gação daque­la al­ma apaixon­ada, e im­pelin­do-​a a ex­tremos de jú­bi­lo in­definív­el, a con­heci­da voz fem­ini­na prin­ci­pi­ou can­tan­do uma evo­cação à tem­pes­tade, que se pode­ria traduzir as­sim: 

  «Vin­de! So­prai fu­riosos, 

  Ven­tos de tem­pes­tade! 

  Er­gue-​te, ma­jes­tade! 

  Er­gue-​te, ó vas­to mar! 

  Pas­sai, legiões de nu­vens! 

  Ve­lai o céu de es­tre­las! 

  Ó génio das pro­ce­las! 

  Vem, quero-​te saudar! 

  «A luz fa­tal do raio 

  Guie o meu bar­co ape­nas! 

  E ru­jam co­mo hien­as 

  As va­gas ao re­dor... 

  Pairem, nos ar's fatídi­cos 

  As aves de car­nagem. 

  E cave-​se a vor­agem 

  Com súbito fragor! 

  «Sur­jam do fun­do abis­mo 

  Os pa­vorosos vul­tos

  Dos náufra­gos sepul­tos 

  Dos mares na am­plidão! 

  Re­spon­da à voz das águas 

  Fre­mentes, ag­itadas, 

  O sil­vo das ra­jadas, 

  Os bra­dos do tro­vão! 

  «Do ar­can­jo de ex­ter­mínio 

  O glá­dio chame­jante 

  Os­tente-​se ra­di­ante 

  De ameaçado­ra luz! 

  Da tem­pes­tade às fúrias 

  As­si­stirei sor­rindo, 

  E bradarei: "Bem-​vin­do!" 

  Ao génio que a con­duz! 

  «Bem-​vin­do, sim, que eu sin­to 

  No seio, mais vi­olen­ta, 

  Uma cru­el tor­men­ta, 

  A lu­ta das paixões! 

  Procuro o mar fu­rioso 

  Co­mo um se­guro asi­lo! 

  Ar­rosto-​o, e não vac­ilo 

  Das on­das aos baldões!

  Co­mo se efec­ti­va­mente a tem­pes­tade obe­de­cesse a es­ta evo­cação sin­gu­lar, um vi­olen­to tufão do sul veio en­capelar as on­das já in­qui­etas, en­co­brindo com a sua voz poderosa as úl­ti­mas no­tas da canção. 

  O bar­co jo­ga­va nas on­das ag­itadas du­ma maneira as­sus­ta­do­ra. Os re­madores fazi­am es­forços poderosos para re­si­stirem à vi­olên­cia das on­das e, pe­los seus movi­men­tos, de­no­tavam a pou­ca tran­quil­idade de es­píri­to que pos­suíam já. 

  Nos in­ter­va­los das ra­jadas, al­gu­mas palavras desta­cadas da tu­mul­tu­osa dis­cussão e or­dens en­con­tradas da manobra que se tro­cavam en­tre eles, vin­ham até aos ou­vi­dos de Pe­dro, que prin­cip­ia­va a in­qui­etar-​se pela sorte daque­la a quem votara to­dos os seus pen­sa­men­tos, a quem con­sagrara in­teiros os tesouros de seus ar­dentes afec­tos. 

  -Temo-​la connosco! -dizia um dos re­madores. -E es­ta é de re­speito! 

  -Quem o havia de diz­er, com a noite que es­ta­va! 

  -Já me não agra­da muito, a falar a ver­dade...

  Neste pon­to, no­va ra­ja­da im­pediu que chegasse à pra­ia o resto do diál­ogo. 

  Quan­do, por sua vez, sere­nou, era a voz da can­to­ra a que se ou­via diz­er: 

  -Hei-​de ser eu ain­da des­ta vez que lh­es dê ân­imo? Hom