e­ns há tan­to no mar e que ain­da não têm con­fi­ança neste seu com­pan­heiro da ju­ven­tude! Sosseguem, eu lh­es as­se­guro que... 

  O fuzi­lar de um relâm­pa­go, que ilu­mi­nou com o clarão sin­istro to­da a ex­ten­sa am­plidão do mar, in­ter­rompeu es­tas palavras; e, in­stin­ti­va­mente, a can­to­ra lev­ou as mãos aos ol­hos, ex­cla­man­do: 

  -Je­sus! 

  O ruí­do en­sur­de­ce­dor de um al­tís­sono tro­vão acabou de des­ori­en­tar os pescadores, em cu­jo manobrar in­con­se­quente se re­con­hecia to­da a tur­bação de ân­imo que sen­ti­am. 

  Pe­dro ex­ami­na­va com in­de­scritív­el an­siedade o re­sul­ta­do daque­la lu­ta de súbito trava­da en­tre os el­emen­tos en­fure­ci­dos e a força hu­mana. Pal­pi­ta­va-​lhe vi­olen­ta­mente o coração com a lem­brança do peri­go que aque­le bar­co cor­ria e, por vezes, uma força in­stin­ti­va o aprox­ima­va das on­das, co­mo para voar em so­cor­ro daque­la ex­istên­cia, à qual tão in­dis­solu­vel­mente deixara lig­ar a sua. 

  -Não é pos­sív­el vencer este mar! Faz-​te à ter­ra, Lourenço, que eu já mal pos­so se­gu­rar o re­mo! 

  -É mel­hor, é mel­hor. A ter­ra! 

  -Vi­ra! -bradaram os out­ros. 

  Quan­do, seguin­do es­ta no­va or­dem de manobra, o bar­co se voltou para de­man­dar a pra­ia, um forte tufão de ven­to so­prou tão de súbito e com tal vi­olên­cia que, apan­han­do de la­do o bar­co, por pouco o vi­ra­va. Um dos home­ns, que se acha­va de­spre­venido, não pôde re­si­stir ao im­pul­so e caiu ao mar. 

  -San­ta Virgem! -bradou com voz an­gus­ti­ada a jovem ital­iana. -Acu­dam. 

  A este gri­to suced­er­am as ex­cla­mações dos re­madores, que se es­forçaram para sal­var o seu com­pan­heiro. Este pôde voltar ao cimo da água a tem­po de se en­con­trar ain­da a pou­ca dis­tân­cia do bar­co e, fir­man­do-​se so­bre a bor­da, saltou para den­tro. A es­curidão da noite era com­ple­ta. 

  Pe­dro ou­viu da pra­ia o gri­to an­gus­ti­ado da can­to­ra, o qual lhe pen­etrou até ao coração. 

  Ou­viu as vozes con­fusas dos re­madores e uma ideia ter­rív­el lhe pas­sou pe­lo es­píri­to. Pen­sou que aque­la mul­her de­scon­heci­da havia caí­do às on­das e lu­ta­va nesse mo­men­to com a vi­olên­cia do mar. 

  Pe­dro era um dos mel­hores nadadores do Fu­radouro. De pe­queno fazia ad­mi­rar os mais hábeis pela maneira co­mo se con­fi­ava ao seio das on­das quan­do mais in­qui­etas, e co­mo que brin­ca­va com elas. 

  Não hes­itou muito tem­po; cor­reu co­mo um louco ao lon­go da pra­ia e deitou-​se ao mar, nadan­do na di­recção do bar­co. 

  Guia­va-​o o som das vozes dos re­madores no meio daque­las trevas que o rodeavam. 

  Mas, pas­sa­dos os primeiros mo­men­tos, Pe­dro sen­tiu que o aban­don­avam as forças em que, por hábito, con­fi­ara. Mal fun­da­da es­per­ança fo­ra es­ta sua! 

  O po­bre moço já não era aque­le pescador ro­bus­to e vig­oroso para quem um re­mo era um brin­co de cri­ança, e que fazia in­ve­ja aos mais alen­ta­dos, por aque­la força mus­cu­lar que sub­ju­ga­va a vi­olên­cia das va­gas; tin­ham-​no alque­bra­do as vigílias con­tínuas e os ex­tremos da paixão que lhe ab­sorver­am to­das as fac­ul­dades daque­la al­ma até en­tão virgem de afec­tos tão poderosos. Ago­ra sen­tia-​se des­fale­cer. A meio cam­in­ho da pra­ia ao bar­co que procu­ra­va, já os movi­men­tos lhe er­am di­fi­cul­tosos e um cer­to ator­doa­men­to de cabeça lhe im­pe­dia reg­ular­izá-​los. 

  Já o an­ima­va ape­nas aque­la força in­stin­ti­va que nos es­tim­ula em situ­ações de­ses­per­adas. 

  De quan­do em quan­do deix­ava-​se tomar dum de­salen­to tão com­ple­to que a cus­to su­fo­ca­va a ten­tação de se d