eixar vencer pela força da cor­rente e baixar, sem es­forços de re­sistên­cia, ao tú­mu­lo que se lhe cava­va aos pés. De­pois a voz do in­stin­to re­an­ima­va a en­er­gia de lu­tar, quan­do ele já deix­ava pen­der ex­aus­to os mús­cu­los e se sen­tia su­cumbir. 

  Ren­ova­va-​se en­tão aque­le com­bate sin­gu­lar, ter­rív­el e so­lene, cu­jos re­sul­ta­dos não po­di­am ser du­vi­dosos. 

  O mar pare­cia deleitar-​se em ator­men­tar a sua ví­ti­ma antes de a de­vo­rar. Uma va­ga im­petu­osa an­ula­va em um mo­men­to os es­forços de muitos; de­pois abran­da­va-​se, co­mo deixan­do-​se vencer, para ce­do re­do­brar de vi­olên­cia e sub­jugá-​lo. 

  A situ­ação do in­fe­liz era de­ses­per­ada. 

  No seu es­píri­to prin­cip­iavam a suced­er-​se, em con­fu­so tro­pel, cu­jo rápi­do voltear lhe fazia sen­tir uma ver­dadeira ver­tigem, mil im­agens vari­adas, origem de quan­tas ideias nos úl­ti­mos tem­pos lhe havi­am pre­ocu­pa­do o pen­sa­men­to.

  Por mo­men­tos es­que­cia-​se já do fim a que ten­di­am to­dos os es­forços ex­ten­uantes que es­ta­va em­pre­gan­do, per­dia a con­sciên­cia da sua Situ­ação precária, du­vi­da­va da im­inên­cia do peri­go, pare­cia-​lhe um son­ho tu­do o que es­ta­va pas­san­do por ele e co­mo se es­força­va por acor­dar. Mas ce­do apare­cia-​lhe a re­al­idade mais amar­ga ain­da, tor­tu­ra­va-​lhe o coração um parox­is­mo de de­ses­pero. 

  Vin­ham-​lhe as saudades dum pas­sa­do que havia es­que­ci­do, sur­giam-​lhe os ter­rores dum fu­turo que ia devas­sar. 

  Dúvi­das, su­per­stições, pre­con­ceitos, tu­do lhe as­salta­va a con­sciên­cia e o fazia deli­rar. De­pois a lem­brança daque­la a cu­ja sal­vação sac­ri­ficara a sua ex­istên­cia sur­gia-​lhe de re­pente co­mo um clarão nas trevas que o cer­cavam e por in­stantes lhe co­mu­ni­ca­va uma en­er­gia im­profícua. Era um li­dar in­útil, aque­le. Já sem con­sciên­cia dos ru­mores, não ven­do, não ou­vin­do na­da que lhe in­di­cas­se a di­recção na qual de­via faz­er con­ver­gir os seus es­forços, lu­ta­va por in­stin­to; mas o es­píri­to alu­ci­na­do já não pre­sidia à lu­ta. Os mem­bros en­rege­la­dos, en­tor­peci­dos, ex­aus­tos, não lhe per­mi­ti­am uma muito lon­ga re­sistên­cia. 

  Subita­mente um relâm­pa­go pro­lon­ga­do ilu­mi­nou o vas­to teatro des­ta ce­na ter­rív­el. Aos ol­hos de Pe­dro, já meio ve­la­dos pela angús­tia, mostrou-​se bem claro e próx­imo o bar­co que tão en­er­gi­ca­mente de­man­da­va e sen­ta­da nele a mul­her por quem vota­va em sac­ri­fí­cios a própria vi­da, de­pois de lhe ter trib­uta­do to­dos os tesouros da sua al­ma. 

  Um no­vo relâm­pa­go re­flec­tiu a sua luz ful­gu­rante nas feições sim­pati­ca­mente be­las daque­la mul­her ex­traordinária. 

  Este re­sul­ta­do re­an­imou por in­stantes as forças já abati­das do náufra­go. Pela primeira vez lhe era da­do con­tem­plar o ros­to daque­la por quem con­ce­beu uma tão sin­gu­lar paixão. Es­sa vista fas­ci­nou-​o! 

  Com uma en­er­gia quase so­bre-​hu­mana, se­gurou-​se à bor­da do bar­co, quan­do este se abaix­ava obe­de­cen­do à on­du­lação das va­gas, e, com os ol­hos es­pan­ta­dos, fi­tou aque­la mul­her, cu­ja voz o en­feitiça­va e, co­mo a da sereia, pare­cia ar­rastá-​lo a uma in­evitáv­el perdição. 

  Ela tam­bém o viu. 

  Ba­tia-​lhe em cheio no ros­to, des­fig­ura­do sin­gu­lar­mente pe­los afec­tos que en­tão se com­ba­ti­am tu­mul­tu­osos e con­trários naque­le peito, um no­vo clarão de relâm­pa­go. 

  A can­to­ra deu um gri­to ao de­sco­brir aque­la in­es­per­ada aparição. Por um in­stin­to de com­paixão es­ten­d