r al­to, viesse em abundân­cia à cos­ta. Mas, co­mo tal não suced­era, tiver­am de se faz­er de tarde os bar­cos mais ao largo. Es­ta­va um tem­po as­sim co­mo ho­je: os ares so­turnos, o ven­to sul e o mar pi­ca­do. Largaram-​se as re­des e se­ria aí pe­lo fim da tarde quan­do de no­vo re­maram para a pra­ia. Chega não chega, de­sem­bar­ca não de­sem­bar­ca, era já lus­co-​fus­co. O mar começou en­tão a lev­an­tar-​se mais, sem que tivesse havi­do mu­dança de ven­to ou coisa que fos­se mo­ti­vo para is­so. Os home­ns mais en­ten­di­dos das com­pan­has não po­di­am diz­er o que adi­vin­ha­va o mar, que as­sim tão do pé para a mão se fiz­era ruim. Este dizia uma coisa, aque­le dizia out­ra, tan­tas cabeças, tan­tas sen­tenças, e ninguém se en­ten­dia.

  «No en­tre­tan­to pux­avam-​se as re­des para ter­ra; a canal­ha fazia, can­tan­do, a al­gazarra do cos­tume, os home­ns berravam co­mo...vocês berram ain­da ago­ra, ra­pazes... eis senão quan­do…» 

  Um movi­men­to de cu­riosi­dade se man­ifestou na as­sem­bleia quan­do o vel­ho Cabaça chegou a este tópi­co da sua de­scrição, que ele, co­mo pro­fun­do con­hece­dor da arte de im­pres­sion­ar os au­ditórios, soube faz­er valer por uma pausa con­ve­niente e uma par­tic­ular e ex­pres­si­va in­flexão de voz. 

  De­pois cor­reu a vista por to­dos aque­les ros­tos, elo­quentes de cu­riosi­dade e, sat­is­feito con­si­go pe­los dotes oratórios de que se perce­bia pos­suidor, con­tin­uou: 

  -Eis senão quan­do, prin­ci­pi­ou-​se a ou­vir uma músi­ca, a mo­do de músi­ca de igre­ja. 

  -De in­stru­men­tal, ti' Cabaça? 

  -Não, homem, daque­la músi­ca que se to­ca nas igre­jas do Por­to. 

  -Já sei, é a dos reale­jos. 

  -Não é dos reale­jos, não; é dos or­gos, or­gos -emen­dou um out­ro, mel­hor in­for­ma­do so­bre a matéria. 

  -Pois é ver­dade! -con­tin­uou o orador. -Começou-​se a ou­vir aque­la músi­ca e lo­go to­dos se calaram a es­cu­tar. Pare­ceu-​lh­es de­pois mais uma voz de mul­her que chora­va e que rompia em al­tas queixas. Ol­haram em re­dor para ver donde par­tia aqui­lo e quan­to mais ol­havam mais se lh­es afig­ura­va virem do mal' os tais choros e gemi­dos. Con­tu­do, por mais que reparassem para as on­das, na­da po­di­am enx­er­gar. Con­tin­uavam puxan­do as re­des e con­tin­uavam a ou­vir as vozes, que ca­da vez au­men­tavam mais. Havia já quem pen­sasse ser feitiçaria aqui­lo. 

  -Feitiçaria, sim. Bem me fio eu nis­so -disse, não des­mentin­do o seu prova­do cep­ti­cis­mo, o mes­mo pescador que pusera em dúvi­da a ex­istên­cia das sereias. 

  O vel­ho Cabaça jul­gou do seu de­ver cor­ri­gir a in­credul­idade deste com­pan­heiro, a qual lhe ia pare­cen­do de­masi­ada. 

  -Homem, sabes que mais? Pede a Deus para que não ven­has à tua cus­ta a fi­ar-​te em bruxe­dos e feitiços. Tu fazes-​te muito va­lente, meu ra­pa­zote, mas acautela-​te, porque um dia…-E operan­do uma ráp­ida di­ver­são no cur­so das suas ideias, o vel­ho prosseguiu: 

  -Mas no meio deste «que será que não será» es­tavam as re­des chegan­do à pra­ia; o pran­to ou­via-​se ain­da mais claro, até que en­fim…vi­ram os pescadores a coisa mais mar­avil­hosa, que ain­da apare­ceu na cos­ta. 

  -Era a sereia? -per­gun­taram, a um tem­po, com an­siosa cu­riosi­dade al­guns im­pa­cientes, cu­jo ân­imo lh­es não deixara sofr­er as de­lon­gas da nar­ração. 

  O tio Cabaça con­tin­uou im­per­tur­báv­el.

  -Vi­ram um an­imal que da cin­ta para baixo era um peixe com­ple­to. 

  -Um peixe?! 

  -Sem tirar nem pôr, es­ca­mas, cau­da, bar­batanas, fi­nal­mente, tu­do. 

  -Ah! Bar­batanas tam­bém? 

  -Tam­bém bar­batanas. 

  -E da cin­ta para cima? 

  -Da cin­ta para 