cima era a mul­her mais boni­ta que se tem vis­to no mun­do. 

  -Ah! 

  -Ora es­sa! 

  -Is­so era arte do di­abo! 

  -E en­tão tin­ha ca­be­lo e dentes e... 

  -Era uma mul­her per­fei­ta; não lh­es es­tou eu a diz­er? 

  -Vou-​me por esse mun­do! 

  -Ol­hem os meus peca­dos! 

  -E en­tão fala­va, ti' Cabaça? 

  -Pois dela é que vin­ha a tal carpi­deira e os tais choros que te disse. 

  -Ah! Es­tou para mor­rer. 

  -Eu se visse tal es­tar­recia.

  -E que dizia ela, ti' Cabaça? 

  -Chora­va e carpia-​se que metia mes­mo dó. To­da a sua pe­na era tirarem-​na do mar. O que ela pe­dia é que a soltassem da rede e que a deix­as­sem voltar para a água, pois só lá é que po­dia viv­er. 

  -E ela fala­va as­sim co­mo a gente, ti' Cabaça? 

  -Pois en­tão? E com uma voz e du­ma maneira que fazia mes­mo en­ternecer os mais em­ped­ernidos. -E o nar­rador, forçan­do a voz a um de­sa­fi­na­do falsete, para lhe dar a mais fem­inil mod­ulação de que ela era sus­cep­tív­el, ten­tou, pouco mod­esta­mente, re­pro­duzir o tim­bre fasci­nador da sereia, dizen­do, con­forme a tradição que fiel­mente con­ser­vara: 

  «-Ai, soltai-​me, soltai-​me -dizia ela -deix­ai-​me voltar para o mar, que, se me lev­ais para ter­ra, eu mor­rerei lo­go. 

  -Po­bre ra­pari­ga! 

  -Po­bre peixe! -emen­dou out­ro. 

  -E porque há-​de ser peixe e não ra­pari­ga? 

  -O quê? O quê? Aqui­lo tem lá al­ma? 

  -Eu sei lá se ela tem al­ma? 

  -Que dizes tu, homem, nem que fos­se gente cristã! 

  -Mas ela que fala­va... 

  -Is­so é por artes do ma­far­ri­co. 

  O vel­ho Cabaça prosseguiu, de­pois de ter­mi­na­da es­ta aci­den­tal dis­cussão psi­cológ­ica: 

  -Hou­ve ain­da as­sim quem quisesse tirá-​la para seco, mas tais foram os seus queix­umes, que o ar­rais, co­movi­do, man­dou soltá-​la da rede. 

  -E era muito grande, ti' Cabaça? 

  -As­sim co­mo uma corv­ina...talu­da. 

  -Es­tá feito! 

  -Lo­go que se viu livre -con­tin­uou o orador -fugiu nadan­do, co­mo um peixe que era, mas a can­tar e com tan­ta aque­la que nem músi­ca de an­jos do céu pode ser tão lin­da. Era um can­tar de tal cas­ta, que to­da a com­pan­ha se deixou ficar a es­cutá-​lo, sem se lhe im­por­tar com a sardinha que já es­ta­va na areia. As ca­chopas da vi­la, que tin­ham vin­do aos cam­in­hos para o Car­re­gal, não que­ri­am saber de out­ra coisa que não fos­se ou­vir aque­la voz. E as­sim ficaram to­dos pos­tos en­quan­to ela se pôde ou­vir e só de­pois se deitaram ao tra­bal­ho, ain­da que com bem pou­ca al­ma. 

  Foi en­tão que um pescador vel­ho disse ser aqui­lo uma sereia e que bem mal tin­ham feito em a deixar fu­gir, pois de na­da sabia tão perigoso para os mar­in­heiros co­mo en­con­trá-​las no mar largo ou es­cutá-​las muito tem­po. 

  -En­tão o que fazem elas, ti' Cabaça? -per­gun­tou um dos pescadores mais jovens e que de to­dos pare­cia tam­bém o mais in­ter­es­sa­do pela nar­ração. 

  -Com aque­les can­tos -re­spon­deu o in­ter­pela­do -pe­los mo­dos ator­doam a gente, que fi­ca as­sim co­mo com uma bebe­deira. Não se faz mais coisa com coisa, não se ati­na com o gov­er­no do leme, nem com o das ve­las ou dos re­mos. Nestes comenos elas lev­an­tam o mar e um homem vai para os peix­in­hos que é mes­mo uma con­so­lação. 

  -E nun­ca mais voltou à cos­ta es­sa…esse peixe? -per­gun­tou ain­da o mes­mo pescador. 

  -Nun­ca mais até ho­je. Ele an­da sem­pre muito ao largo e só quan­do al­gu­ma tro­voa­da forte o es­cor­raça é que foge para as costas.

  Seguiram-​se vários co­men­tários so­bre a plau­si­bil­idade do ca­so. O tio Cabaça con­tara-​o com tal acen­to de con­vicção, e era tão pouco da­do a grace­jos o vel­ho pescador, que to­do o au­