ditório se sen­tiu in­cli­na­do a ad­mi­tir o carác­ter verídi­co do fac­to ex­traordinário que lhe acabara de ser nar­ra­do. 

  De­pois de muito con­ver­sar, dis­per­sou-​se fi­nal­mente o grupo, aí pe­lo cer­rar da noite, e a taber­na da tia Sal­ga­da viu au­men­tar o número dos hós­pedes e o das bo­cas que fazi­am justiça, por palavras e obras, às ex­celên­cias do seu Bair­ra­da. 

  Na pra­ia ape­nas ficaram dois home­ns. 

  Um era o tio Cabaça, que, sen­ta­do, com as mãos en­tre­laçadas por di­ante dos joel­hos e o cachim­bo pen­dente dos lábios cresta­dos, ol­ha­va para as on­das que se suce­di­am na areia e pare­cia ab­sorvi­do em pro­fun­da med­itação. 

  Este hábito de cis­mar gera-​o a con­tin­ua­da con­tem­plação das ce­nas marí­ti­mas. 

  O homem que vive e en­vel­hece a es­cu­tar aque­la músi­ca das on­das, que do alvoro­cer ao crepús­cu­lo é em­bal­ado por elas, o que al­ter­nada­mente as con­heceu afáveis e ir­ri­tadas, que de­las re­ce­beu carí­cias e ameaças e as viu ora suave­mente ilu­mi­nadas pe­lo lu­ar, ora re­flectin­do a luz sin­is­tra dos relâm­pa­gos, sur­preende-​se muitas vezes nes­tas si­len­ciosas e in­ex­primíveis di­va­gações do es­píri­to, tão fre­quentes nos po­et­as. 

  Em to­dos os por­tos de mar se en­con­tram, ao fim da tarde, dess­es vel­hos cis­madores que, aparente­mente aten­tos nas for­mas em que se con­den­sa no ar o fu­mo do seu cachim­bo, trazem por bem longe o pen­sa­men­to, talvez que a col­her saudades nas recor­dações daque­le viv­er in­cer­to de mar­in­heiro, para cu­jas la­bo­riosas peripé­cias os anos os in­val­idaram já. 

  O vel­ho Cabaça prin­cip­ia­va a pen­sar nes­sa época próx­ima, na qual lhe havia de fraque­jar o braço que ain­da movia vig­orosa­mente o re­mo; ness­es lon­gos dias, em que, pre­so à ter­ra, se ve­ria obri­ga­do a ocu­par-​se num tra­bal­ho de mul­heres, reparan­do as re­des da com­pan­ha. 

  Aque­le fu­turo tran­qui­lo, reser­va­do à sua vel­hice, en­tris­te­cia-​o, co­mo, nos tem­pos de brios cav­al­heirosos, de­san­ima­va o guer­reiro a ideia du­ma morte que não fos­se no meio da re­fre­ga e dis­puta­da até ao úl­ti­mo sus­piro com feitos de ar­ro­ja­da bravu­ra. 

  Por is­so o tio Cabaça tin­ha fre­quentes mo­men­tos de melan­co­lia. 

  O out­ro homem era o pescador moço, a quem tan­to in­ter­es­sara a história da sereia, con­ta­da pe­lo primeiro, havia pouco, e que, des­de que a ou­vi­ra, pare­cia haver fi­ca­do sob o domínio du­ma pro­fun­da im­pressão.

  A al­ta es­tatu­ra deste jovem pescador, as suas for­mas bem de­sen­volvi­das e a fi­siono­mia ex­pres­si­va de in­teligên­cia e vi­vaci­dade, davam-​lhe um cer­to ar de no­breza e res­olução que fazia lem­brar aque­le céle­bre herói napoli­tano, o ou­sa­do e pa­trióti­co Mazaniel­lo.

  As am­plas e pitorescas vestes de pescador deix­avam so­bres­sair to­das as van­ta­gens da sua vig­orosa e ex­ce­lente cor­po­ratu­ra. 

  Era uma or­ga­ni­za­ção cheia de vi­da e de ro­bustez, a daque­le moço, em cu­jo ros­to trigueiro e im­berbe se de­sen­havam neste mo­men­to os sinais ev­identes, ain­da que desvaneci­dos, du­ma cer­ta pre­ocu­pação de es­píri­to. 

  Por baixo do clás­si­co gor­ro de lã es­car­late saíam-​lhe pro­fu­sos os ca­be­los, que lhe vin­ham quase pois­ar nos om­bros. Com os braços cruza­dos e a fronte pen­di­da, este homem passea­va si­len­cioso no ex­tremo da pra­ia, tão próx­imo das on­das, que es­tas, nos maiores flux­os, chegavam a al­cançá-​lo sem que mes­mo as­sim con­seguis­sem dis­traí-​lo daque­la ab­stracção em que pare­cia con­cen­tra­do. 

  Este pescador que com o vel­ho Cabaça fi­cou na pra­ia, o Pe­dro do Rami