res, an­da­va, de há tem­po, apreen­si­vo e tac­iturno. Pos­suía in­stin­tos de po­eta, o mal­fada­do.

  Foram ess­es in­stin­tos que o im­peliam para aque­la ir­re­sistív­el tendên­cia à solidão, os que lhe fazi­am perce­ber, no som plan­gente das va­gas, mod­ulações, para as quais os seus com­pan­heiros não tin­ham sen­ti­dos or­ga­ni­za­dos, que por muito tem­po o con­ser­vavam imóv­el, a seguir com a vista aque­las on­das es­pumosas que se des­fazi­am na areia, as for­mas ex­trav­agantes das nu­vens, os con­trastes sur­preen­dentes da luz que as atrav­es­sa ou se re­flecte nelas, col­orindo-​as com inim­itáv­el pale­ta, a cur­va de­scri­ta na am­plidão pela ave aquáti­ca de voo rápi­do, e até o es­ta­lar do tro­vão e o fuzi­lar dos relâm­pa­gos em noites de tem­pes­tade.

  Pe­dro sen­tia, e por in­fe­li­ci­dade sua, sen­tia com ex­ces­so. Este mun­do, ev­iden­te­mente, não foi feito para quem sente as­sim! Aceita­va, porém, as im­pressões que re­ce­bia sem se lem­brar de as dis­cu­tir; aceita­va-​as co­mo um quase fa­tal­is­mo, que nem lhe deix­ava pen­sar na pos­si­bil­idade de se sub­trair a elas. 

  Via que por to­da a parte o acom­pan­ha­va uma co­mo at­mos­fera de ine­bri­antes as­pi­rações e re­ce­bia a in­fluên­cia bal­sâmi­ca desse am­bi­ente sem se in­ter­rog­ar so­bre a na­tureza dele.

  Sen­tia, sem a con­hecer, a poe­sia da na­tureza, a que se rev­ela em cores, em sons e em per­fumes e que des­per­ta a poe­sia do sen­ti­men­to em al­mas or­ga­ni­zadas para ess­es sub­limes acordes. Era um po­eta sem ter a con­sciên­cia de o ser, sem ter se­quer a con­sciên­cia da poe­sia. 

  Quan­do es­ta es­pé­cie de en­car­nação dum se­gun­do ver­bo, mis­tério orig­inal dos entes priv­ile­gia­dos que se dizem po­et­as, se opera em es­píri­tos que a ed­ucação não vem cul­ti­var de­pois, surgem car­ac­teres, co­mo o de Pe­dro, nos quais se pas­sam os mais es­tran­hos e ad­miráveis fenó­menos que pode ofer­ecer ao es­tu­do a na­tureza hu­mana. 

  É uma lu­ta con­tínua, um an­tag­onis­mo in­útil, um com­bat­er de­ses­per­ado de as­pi­rações que se es­torcem im­po­tentes sob a cadeia que lh­es sopeia os es­forços. Al­ge­ma­dos Prom­eteus que têm por prin­ci­pal su­plí­cio os ir­re­al­izáveis ane­los do seu próprio génio! Tân­ta­los, se­quiosos dum ig­no­to licor, que adi­vin­ham, sem o con­hecer, co­mo o alívio úni­co à an­siedade que os mar­ti­riza!

  -Mas em que an­davas tu a cis­mar ago­ra que nem se­quer me vias, de tão per­to que es­tavas? 

  -Di­ga-​me, ti' Cabaça, sem­pre será ver­dade que ex­is­tem sereias?

  O in­ter­ro­ga­do, re­ceben­do à queima-​roupa a in­ter­pelação, vac­ilou um bo­ca­do; as­sum­iu, porém, em breve, to­do o seu sangue-​frio e re­spon­deu: 

  -Con­quan­to eu as não visse, nem ou­visse nun­ca -e nem dis­so me res­ta pe­na -creio que as há, pe­lo que já disse do que mui­ta vez ou­vi con­tar a meu pai -o Sen­hor o chame a si. 

  -E é cer­to que ess­es peix­es ou es­sas mul­heres, que não sei ao cer­to co­mo lh­es chame, can­tam às mar­avil­has? 

  -As­sim o dizem. Pe­los mo­dos é com ess­es cantares que elas per­dem os nave­gantes no al­to mar. Poucos são os que têm força para as não seguir, só para es­cu­tar-​lh­es aque­la músi­ca de an­jos. 

  Pe­dro fi­cou no­va­mente si­len­cioso e pen­sati­vo. O vel­ho pescador re­speitou por al­gum tem­po aque­le silên­cio, mas en­fim di­rigiu ao seu com­pan­heiro uma súbi­ta in­ter­ro­gação. 

  -Mas para que di­abo queres tu saber is­so, ra­paz? 

  -É porque... -Pe­dro ia a re­spon­der, mas out­ra vez hes­itou. 

  -Porque é? Fala! 

  -Ol­he, ti' Cabaça. Vou diz­er-​lhe uma coisa; mas não se pon­