ha a rir de mim, que ju­ro-​lhe, por min­ha mãe, ser ver­dade tu­do quan­to me ou­vir. 

  -Fala lá, ra­paz -re­spon­deu o tio Cabaça, que to­mou lo­go um ar sisu­do e grave, ao ou­vir a in­vo­cação a que recor­rera Pe­dro e já de­veras in­ter­es­sa­do pela co­mu­ni­cação que ia re­ce­ber -Fala, que eu te es­cu­to. 

  -É que eu... ou­vi já can­tar uma sereia, ti' Cabaça disse Pe­dro em tom mis­te­rioso e in­ter­ro­gan­do ao mes­mo tem­po a fi­siono­mia do vel­ho, a ver o género de im­pressão que es­ta no­va pro­duzi­ra nele. 

  -Ou­viste can­tar uma sereia! -disse João Cabaça de­veras sur­preen­di­do. -Quan­do? 

  -Há al­gu­mas noite a fio que a es­cu­to. 

  -Onde? 

  -Aqui, da pra­ia. É uma músi­ca de an­jos que vem das on­das. Uma músi­ca co­mo ain­da a não ou­vi em parte al­gu­ma. Não é ale­gre e di­ver­ti­da, co­mo a das fes­tas e ar­ra­iais; nem séria e de de­voção, co­mo a que can­tam as mul­heres na vi­la à mis­sa-​do-​dia, ao con­sagrar da hós­tia e do cálix; mas é uma músi­ca triste, saudosa, uma músi­ca que me faz chorar. A voz que can­ta parece de mul­her, mas, ao ou­vi-​la, até chego a es­que­cer-​me do lu­gar em que es­tou. Sabe? A pra­ia, o mar, as es­tre­las, o céu, tu­do de­sa­parece di­ante de mim. Parece-​me que en­tão só sei viv­er para ou­vir aque­la voz no meio do barul­ho das on­das, que não con­segue abafá-​la. Procuro, ape­sar da es­curidão da noite, de­sco­brir a mul­her, se é mul­her, eu sei? a fa­da, talvez o an­jo, que can­ta as­sim, mas na­da pude ain­da ver. Sin­to em mim uma coisa que não sei bem diz­er o que é. Que­ria seguir aque­la voz. Ten­ho sen­ti­do de­se­jos de me deitar às on­das para ou­vir de mais per­to aque­le can­tar di­vi­no. É quase uma ten­tação tão forte que lhe ten­ho re­sis­ti­do a cus­to e não sei se al­gu­ma vez...

  O vel­ho pescador se­gurou com ím­peto no braço de Pe­dro, co­mo se naque­le mo­men­to o visse já próx­imo a seguir a voz que per­fi­da­mente o atraía. 

  -Que te livre Deus de tal, ra­paz! -ex­clam­ou João Cabaça. -Não te disse eu que corre à sua perdição quem se deixar levar por esse can­to que parece de an­jos, mas que é antes de demónios?

  Pe­dro prosseguiu: 

  -Eu per­gun­ta­va há muito a mim mes­mo que mis­tério se­ria aque­le. Ao princí­pio julguei que fos­se um engano dos meus ou­vi­dos. Os ven­tos da noite e o barul­ho das on­das soam às vezes de maneira que semel­ham uma músi­ca a dis­tân­cia, mas era difer­ente o que eu ou­via: os pás­saros do mar, gemen­do às noites pelas pra­ias, imi­tam tam­bém queix­umes e gemi­dos, mas eu que nasci e ten­ho vivi­do a es­cutá-​los bem lh­es sei dis­tin­guir o can­to; se o tem­po é sossega­do e o ven­to fa­voráv­el, o can­tar dos mar­in­heiros de al­gu­mas em­bar­cações que pairam ao largo chega-​nos aos ou­vi­dos con­fu­so e quase sum­ido; mas a músi­ca que eu es­cu­ta­va não era para se con­fundir com aque­la. Era de mul­her a voz, mas o es­ti­lo do can­tar não era o da nos­sa ter­ra. Nun­ca até en­tão o tin­ha eu es­cu­ta­do, não sei até se em al­gu­ma parte do mun­do se can­ta as­sim. Quan­do há pouco lhe ou­vi a história da sereia, foi co­mo se uma luz me alu­mi­asse na es­curidão em que es­ta­va. É aque­le, deve ser aque­le o can­to de que falavam os anti­gos pescadores. Nem eu sei que out­ro pos­sa haver mais para nos con­fundir e perder. Bem ve­jo que pode ser perigosa para os mar­in­heiros, porque, di­go-​lhe uma coisa, se aque­la voz can­tasse do fun­do de um abis­mo, parece-​me que poucos se vence­ri­am para, lev­ados por ela, se não pre­cip­itarem. 

  A pra­ia es­ta­va, en­fim, com­ple­ta­mente de­ser­ta. 

  O ven­to tin­ha vi­ra­do a oeste. Nu­vens ca­da vez mais ne­gras e grandes