, em que tivera lu­gar o diál­ogo en­tre ele e o vel­ho João Cabaça, foi uma daque­las em que Pe­dro do Ramires pro­lon­gou até ho­ras adi­antadas o seu pas­seio ha­bit­ual, seguin­do para o sul da cos­ta. 

  Ab­sorvi­do em seus pen­sa­men­tos, cam­in­hou in­sen­sivel­mente a pas­sos rápi­dos e de­siguais, até deixar a uma grande dis­tân­cia os pal­heiros da povoação do Fu­radouro. 

  Por este tem­po já a es­curi­dade da noite era com­ple­ta, an­te­ci­pa­da, co­mo fo­ra, pe­los cú­mu­los de nu­vens que, partin­do do oci­dente, se tin­ham, em pouco, es­pal­ha­do por to­da a abóba­da ce­leste. 

  O jovem pescador parou en­fim; parou e pôs-​se a ol­har vaga­mente para o mar, co­mo se, de mis­tu­ra com o clam­or das on­das, es­perasse re­ce­ber al­gu­ma voz que lhe fos­se des­ti­na­da. 

  De­pois quase se deixou cair na areia da pra­ia e, pou­san­do a cabeça nas mãos en­cruzadas, deitou-​se e fi­tou os ol­hos nas nu­vens, co­mo se nas for­mas ir­reg­ulares que elas de­sen­havam no es­paço es­tivesse lendo uma pági­na mis­te­riosa es­cri­ta em car­ac­teres de­scon­heci­dos. 

  E as­sim se conser­vou du­rante ho­ras, não o in­qui­etan­do a vi­olên­cia do ven­to húmi­do que lhe açouta­va as faces, os gri­tos roucos e an­gus­ti­ados de al­gu­ma ave que fu­gia à bor­ras­ca imi­nente, nem o ru­mor sur­do que já se es­cu­ta­va de quan­do em quan­do, eco ameaçador de tem­pes­tades longín­quas. 

  Mas, de súbito, es­treme­ceu, levan­tou so­bres­salta­do a cabeça e, re­co­stan­do-​se ao braço, tré­mu­lo de in­qui­etação, di­rigiu a vista para aque­le es­paço tene­broso que se es­ten­dia di­ante dele, co­mo pre­tenden­do devas­sar na ob­scuri­dade da noite o que quer que fos­se que tão re­penti­na­mente o ar­ran­cara da imóv­el con­tem­plação em que se con­ser­va­va havia tan­to. 

  A noite foi, porém, disc­re­ta; não er­gueu uma só pon­ta do seu man­to para rev­elar o mis­tério. Pe­dro con­tin­ua­va na mes­ma posição tão ex­pres­si­va de ávi­da cu­riosi­dade que de re­pente tomara. 

  Pouco a pouco as no­tas maviosas de um can­tar dis­tante chegaram, co­mo um eco ain­da mal apre­ciáv­el, aos ou­vi­dos aten­tos do pescador. 

  Es­cu­tan­do-​o, ele er­guia-​se fre­mente e ag­ita­do so­bre os joel­hos e, de mãos postas e a cabeça in­cli­na­da na di­recção donde lhe chega­va es­ta voz, con­ser­va­va-​se imóv­el e em pro­fun­do recol­hi­men­to, co­mo um eleito do Sen­hor re­ceben­do em êx­tase a in­spi­ração div­ina. Aque­le som con­trasta­va, na sua melo­dia e suavi­dade, com o bramir dis­corde das va­gas, que ba­ti­am vi­olen­tas na pra­ia. 

  Dir-​se-​ia o can­to dal­gu­mas dessas fadas que, se­gun­do as crenças pop­ulares, atrav­es­sam ex­ten­sas regiões marí­ti­mas em fan­tás­ti­ca vi­agem e sob um fa­tal en­can­ta­men­to. 

  Pe­dro es­cu­ta­va em­beve­ci­do aque­la músi­ca cu­ja toa­da lhe era es­tran­ha e dum es­ti­lo in­teira­mente di­ver­so do das canções pop­ulares, úni­cas que até en­tão ele tin­ha con­heci­do. 

  Fala­va-​lhe por is­so poderosa­mente à imag­inação esse can­to, cu­jas palavras a dis­tân­cia lhe não per­mi­tia ain­da perce­ber.

  A in­visív­el can­to­ra pare­cia aprox­imar-​se; perce­bi­am-​se ago­ra mel­hor as mod­ulações sonorosís­si­mas daque­la voz po­tente e ar­genti­na que con­seguia dom­inar o ruí­do das va­gas e que se es­ten­dia ao longe pela pra­ia, co­mo à procu­ra dum eco que a reper­cutisse. 

  Ago­ra já a le­tra da canção po­dia ser perce­bi­da. Mas, se o es­ti­lo pouco vul­gar daque­la músi­ca causara já es­tran­heza e in­fluíra poderosa­mente no ân­imo ago­ra ex­ci­ta­do do moço pescador, a lin­guagem de­scon­h