eci­da de que era acom­pan­ha­da não lhe pro­duzia menor im­pressão. Ig­no­ra­va o que dizia, mas acha­va-​lhe qual­idades mu­si­cais que o en­le­vavam ao es­cutá-​la. Era uma lin­guagem cu­jas palavras pare­ci­am ter um sen­ti­do uni­ver­salmente apre­ci­ado, em tão per­fei­ta e in­ex­plicáv­el con­cordân­cia pare­ci­am es­tar com as ideias e sen­ti­men­tos que ex­prim­iam. 

  De re­pente pare­ceu-​lhe dis­tin­guir um ruí­do, co­mo o do bater de re­mos na água e, com a vista ex­ci­ta­da de pescador, jul­gou re­con­hecer, não ob­stante o tene­broso da noite, uma for­ma ne­gra moven­do-​se no cimo das on­das, er­guen­do-​se, abaixan­do-​se, de­sa­pare­cen­do para tornar a sur­gir e a el­evar-​se e co­mo de­man­dan­do a pra­ia com es­forços por­fi­ados! 

  Pe­dro fi­tou aque­le ob­jec­to com an­siedade. Nas for­mas mal dis­tin­tas, nos movi­men­tos, no som par­tic­ular que pro­duzia ao cam­in­har, di­vidin­do as águas, pare­cia-​lhe um destes pe­quenos bar­cos que os pescadores chamam chin­chor­ro, frágeis es­quifes em que es­ta in­trép­ida gente do mar tan­tas vezes ar­rosta, a es­forços de poucos braços, com a vi­olên­cia das on­das. 

  Im­peli­do pela força do ven­to e pe­lo es­forço dos re­mos, este bar­co ca­da vez se aprox­ima­va mais da pra­ia. Pe­dro não sabia ain­da se era dele que par­ti­ra o can­to que havia seis noites o trazia en­le­va­do pela solidão da cos­ta marí­ti­ma e que, de­pois da história nar­ra­da pe­lo tio João Cabaça, muito se­ri­amente atribuía já à sober­ba e ar­ti­fi­ciosa fil­ha das on­das, de que se jul­ga­va ví­ti­ma. 

  À me­di­da, porém, que ele se aviz­in­ha­va, pôde perce­ber o som de várias vozes de tim­bre di­ver­so em­pen­hadas num diál­ogo an­ima­do; e, ce­do, a pou­ca dis­tân­cia a que já vo­ga­va da cos­ta tornou dis­tin­tas as seguintes palavras: 

  -Eu bem disse à Madama que era perigoso o pas­seio nu­ma noite destas. O mar não é o rio, e... 

  Is­to dizia uma voz rou­ca e áspera, à qual out­ra de tim­bre melo­dioso e vi­brante, e que ev­iden­te­mente per­ten­cia à pes­soa a quem fo­ra di­rigi­da a in­sin­uação, re­spon­deu: 

  -Aca­so me com­pe­tirá a mim dar ân­imo a home­ns que, des­de cri­ança, vivem no mar? Que ver­gonha! E riu-​se. Es­tas palavras foram di­tas com uma cer­ta in­flexão, que de­nun­ci­ava a origem es­trangeira da que as pro­nun­cia­ra. 

  Pe­dro re­con­heceu nes­ta voz a da can­to­ra de­scon­heci­da e o coração so­bres­salta­va-​se-​lhe a es­cutá-​la. 

  A voz rou­ca re­spon­deu à ar­guição que a out­ra lhe fiz­era: 

  -Não, Madama, não so­mos nós que temos me­do do mar e tan­to que não puse­mos pecha em a traz­er­mos aqui. Mas por um di­ver­ti­men­to, brin­car as­sim com as on­das; es­col­her uma noite es­cu­ra, fria e ven­tosa para vir can­tar des­ta for­ma ao ar livre, quan­do es­tão aí ã por­ta tan­tas de lu­ar claro, co­mo o dia! A falar a ver­dade... 

  Uma risa­da jovial re­spon­deu à ob­ser­vação e a mes­ma voz fem­ini­na repli­cou: 

  -Parece-​lh­es tu­do is­to uma lou­cu­ra, não é as­sim? Po­bres home­ns! E talvez ten­ham razão. Mas eu quero sat­is­faz­er as min­has lou­curas to­das. Sin­to nis­to um praz­er!...Mas não se in­qui­etem. Eu con­heço al­gu­ma coisa o mar e sei ler na di­recção do ven­to e no as­pec­to das nu­vens as mu­danças prováveis do tem­po. Es­tudei as tem­pes­tades da min­ha ter­ra. Nasci co­mo vós à beira-​mar. Meus pais er­am pescadores tam­bém. O berço que me em­balou nos meus primeiros sonos foi o bar­co em que to­da a min­ha família se trans­porta­va; a rede a cober­ta úni­ca em que mui­ta vez me en­volver­am para dormir. Apren­di as­sim, de pe­que­na, es­ta músi­ca da