Title: O Capitão Passanha
Author: Mário de Carvalho
CreationDate: Tue Jul 21 14:01:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Mar 04 13:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Capitão Pas­san­ha

  Mário de Car­val­ho

  Os tex­tos aqui pub­li­ca­dos foram ex­traí­dos do livro Con­tos da Sé­ti­ma Es­fera, de Mário de Car­val­ho, que gen­til­mente au­tor­izou a sua pub­li­cação.

  © 1997, Mário de Car­val­ho e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-91-X

  Lis­boa, Jun­ho de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  O CAPITÃO PAS­SAN­HA

  Do prob­le­ma que o capitão Pas­san­ha 

  hou­ve de re­solver quan­do, 

  em cir­cun­stân­cias atribu­ladas, 

  co­man­da­va o Maria Ed­uar­da 

  no es­tre­ito de Mala­ca 

  e do bom despa­cho que lhe deu 

  com a co­op­er­ação de to­dos 

  ou O enig­ma da es­tá­tua mu­ti­la­da 

  en­con­tra­da nos fun­dos de Shan­de­noor 

  Há meses, o navio oceanográ­fi­co Sca­nia, pesquisan­do es­pé­cies mar­in­has en­tre Sama­tra e Ceilão, não longe dos baix­ios a que chamam de Shan­de­noor, trouxe à tona um es­tran­ho acha­do, de­cer­to há muito afun­da­do nas pro­fun­das geladas daque­las par­agens. Trata­va-​se de uma es­tá­tua de ges­so, que­bra­da em três partes, rep­re­sen­tan­do o cor­po de um homem de que nun­ca se con­seguiu en­con­trar a cabeça. As car­ac­terís­ti­cas da es­tá­tua, muito mal­trata­da de corais e al­gas, com seus braços fi­nos, en­cur­va­dos e mal pe­ga­dos ao cor­po, suas sug­estões de ves­tuário iniden­ti­ficáv­el. seus pés jun­tos e grandes, lem­bran­do os dos sar­cófa­gos, são ac­tual­mente es­tu­dadas por uma equipa de es­pe­cial­is­tas nos ar­mazéns do museu de Kuala-​Lumpur. Bus­ca-​se uma hipótese, min­ima­mente rig­orosa, para o aparec­imen­to da es­tá­tua naque­le pon­to e com aque­le tal­he, di­ver­so de tu­do o que é con­heci­do nas civ­iliza­ções em vol­ta. Aler­ta­dos, os es­otéri­cos, par­asitas do mis­tério, es­crever­am já rios de tin­ta so­bre o que con­sid­er­am ser o primeiro vestí­gio do con­ti­nente de­sa­pare­ci­do de Mu.

  Porém, neste par­tic­ular, co­mo em to­das, as coisas não são o que pare­cem. 

  Tu­do se pas­sou há muito ano, no tem­po dos navios veleiros, quan­do o Maria Ed­uar­da sul­ca­va o es­tre­ito de Mala­ca, no re­gres­so a Lis­boa ... 

  Saltos br­us­cos do ven­to anun­cia­ram a sama­tra­da e a bor­do tu­do se pre­ve­niu e con­for­mou-​se a mareação para frus­trar o re­bate da na­tureza. Ninguém con­ta­va, to­davia, que a tem­pes­tade viesse tão bra­va. Du­rante ho­ras, o Maria Ed­uar­da foi sacu­di­do en­tre vales, mon­tan­has e túneis líqui­dos e mes­mo a mar­in­hagem mais afei­ta aos mares do es­tre­ito cui­da­va ser aque­la a der­radeira tem­pes­tade que via e evo­ca­va in­stin­ti­va­mente as vel­has orações da in­fân­cia. O co­man­dante Pas­san­ha não se deixou im­pres­sion­ar. Tin­ha já vis­to muito mun­do, a sua vi­da es­ta­va rec­hea­da de con­tenciosos com a na­tureza e não era uma sama­tra vul­gar que lhe ia aque­ntar o sangue-​frio. Tan­to mais que tin­ha con­fi­ança no navio, lenho ri­jo, de boas madeiras, há pouco quer­ena­do nos es­taleiros de Viana. As­sim se fez amar­rar à ro­da do leme, lo­go aos primeiros rompantes do ven­to, e de­cid­iu dar tino à maru­ja­da, porque o cumpri­men­to rig­oroso das or­dens, mes­mo in­úteis, é boa cu­ra para o me­do e a de­ses­per­ança. Os home­ns do mar -sabia-​o o capitão -têm de ter sem­pre que faz­er, em quais­quer cir­cun­stân­cias, ou é mais que cer­to sair dis­late. 

  E foi neste es­píri­to, na maior crise dos mares e dos ven­tos, quan­do no meio das pan­cadas de água j