á ninguém ati­na­va ao cer­to se o navio ia ou não sub­mer­so, que o co­man­dante man­dou que se vazassem no mar os bar­ris de óleo e as tal­has de azeite car­regadas no porão. Não ig­no­ra­va o capitão que, no es­ta­do daque­le mar, nen­hum alívio traria a manobra. Mas a ver­dade é que a ideia deu ân­imo à mar­in­hagem que, num fre­ne­si sal­vador, se ob­sti­nou em cumpri-​la, agar­ra­da aos ca­bos de vaivém. Mais tarde, recor­dan­do a tem­pes­tade, diri­am com grande ex­agero que, não fo­ra aque­la or­dem do co­man­dante a do­mar as águas, e elas teri­am abafa­do o navio sem que ninguém so­brasse para con­tar a história. 

  A tem­pes­tade pas­sou, porque é da na­tureza das tem­pes­tades pas­sarem. As on­das de­si­sti­ram dos céus e três ou qua­tro re­pelões sec­os de ven­to vier­am limpar os ares e deixar um avi­so fi­nal aos home­ns para que não se metessem noutra. 

  No dia seguinte, o Sol veio re­sp­lan­de­cer um mar largo e bran­da­mente verde, sob um céu de­spi­do de nu­vens, pou­sa­do, tran­quil­izador. Mal o con­tem­plaram os mar­in­heiros, que o dia foi ded­ica­do à bom­ba e às tare­fas de reparação do apar­el­ho avari­ado e de limpeza do navio, até que re­bril­has­se, em con­sonân­cia com a pais­agem. 

  Nis­to, um mar­in­heiro deu sinal de vela a es­ti­bor­do. O ime­di­ato indagou com o ócu­lo e veio dar parte ao capitão. Era um jun­co em apuros, mal­trata­do da tem­pes­tade, com dois mas­tros em baixo e água a dar pelas amuras. De bor­do, fazi­am acenos que pare­ci­am, ao ime­di­ato, de­ses­per­ados.

  O capitão hes­itou, de mãos atrás das costas, se sim, se não, havia de dar sal­va­men­to aos chins, que os mares er­am in­se­guros e to­dos os cuida­dos poucos. Op­tou pe­lo que lhe di­tavam o sen­ti­men­to e os ol­hares con­doí­dos do ime­di­ato e da trip­ulação, mas não pôs de la­do os di­ta­mes da prudên­cia. 

  «Ar­renego de capitão que di­ga "não cuidei"», diziam os anti­gos, e bem lem­bra­do es­ta­va o co­man­dante destes e doutros avi­sos quan­do, de­pois de or­denar a manobra de atra­cação ao jun­co, dis­pôs o seguinte: 

  Que a vel­ha caron­ada que jazia en­vol­ta em es­teiras a um can­to dos alo­ja­men­tos fos­se trazi­da para o con­vés e at­aca­da; 

  Que o ime­di­ato e dez mar­in­heiros, ar­ma­dos de sabres e de macha­dos, se es­con­dessem atrás da amu­ra­da, à al­heta de es­ti­bor­do, para o que viesse; 

  Que to­das as ar­mas de fo­go se dis­pusessem no con­vés, car­regadas e prontas, ao al­cance de mão; 

  Que ninguém fizesse alvoroço nem mo­dos de es­tran­heza, para que as manobras, vis­tas de fo­ra, se mostrassem de­sacaute­ladas. 

  E com o mestre calafeteiro ao la­do, de mecha ace­sa, ali pro­movi­do a bom­bardeiro, zelou para que a caron­ada, dis­farça­da en­tre ro­los de cor­dame, se­gurasse sem­pre o jun­co na lin­ha de fo­go. 

  Muito per­to, o jun­co era um ca­far­naúm de mas­same, pran­chas e canas que­bradas, que pare­cia sem gov­er­no, ao som do mar. Al­guns cor­pos, vesti­dos de va­gos tra­pos ro­tos, an­davam de ro­jo pe­lo con­vés e uma meia-​dúzia de chins es­quáli­dos fazia sinais lân­gui­dos do tombadil­ho. 

  Chega­dos à fala, o capitão, por meio do por­ta-​voz, bradou per­gun­tas em por­tuguês, repeti­das em in­glês de cais, com al­gu­ma mis­tu­ra de palavrea­do chim e malaio. De bor­do do jun­co levan­tou-​se uma al­gar­avi­ada in­com­preen­sív­el, en­vol­ta em in­dis­cernív­el ges­tic­ulação ori­en­tal. O co­man­dante de­duz­iu que pre­cisavam de re­boque e de al­imen­tos e man­dou aprestar latas de corned beef e três bar­ris de quin­to, en­quan­to se op­er­ava a atracagem por lança­men­to de uma amar­ra com an­corete. Es­ta­va firme­mente de­ter­mi­na­do a manobrar