os om­bros com dis­plicên­cia. E foi um dos cúlies, meio en­far­rus­ca­do de óleos e en­odoa­do de mas­sas con­sis­tentes, que num por­tuguês tor­to me deu uma ex­pli­cação. 

  Quan­do naque­la ro­ta fazia bom tem­po, e sen­sivel­mente sem­pre nas mes­mas co­or­de­nadas, apare­cia uma di­vin­dade, co­mo a que ago­ra nos de­fronta­va, que exi­gia um sac­ri­fí­cio para que a vi­agem pudesse prosseguir. Nem sem­pre, porém, is­so acon­te­cia, o que lev­ava cer­tos co­man­dantes a afoitar-​se, fi­ados em que o mar, dessa vez, es­tivesse fran­co. Para azar nos­so, ali nos víamos en­cren­ca­dos - e julguei dis­cernir, por en­tre o grande fluxo de palavrea­do malaio, uma cer­ra­da críti­ca ao gov­er­no do navio de per­me­io com maldições. 

  O co­man­dante e a sua equipa abri­am en­tre­tan­to a can­cela e trazi­am para a ponte um vel­ho faméli­co, de lon­ga bar­ba bran­ca, imun­da, tur­bante es­far­ra­pa­do, que, de ol­hos em al­vo e mãos so­bre o peito, des­fi­ava uma in­ter­mináv­el ladain­ha pe­los lábios semicer­ra­dos, ao jeito dos vi­sionários ori­en­tais. 

  In­ter­ceptei o capitão, à pas­sagem, mas ele afas­tou-​me para o la­do, im­pa­ciente, e resmo­neou: 

  -O ami­go doutor ago­ra não se mete nis­to, en­ten­di­do? E deixa-​me con­duzir as coisas porque aqui quem man­da sou eu. Ora pon­ha-​se man­so, sim?

  E, com os dois si paios, es­coltou o vel­ho até jun­to da amu­ra­da, onde o em­purraram e deixaram só, a en­gro­lar as suas rezas, frente ao deus que, lá longe, aguar­da­va. 

  O ir­lân­des, nesse meio tem­po, ex­pli­ca­va-​me la­coni­ca­mente que o próprio vel­ho se tin­ha ofer­eci­do para ser sac­ri­fi­ca­do com a anuên­cia da família, pe­lo que o pro­ced­imen­to se fazia com o con­sen­so de to­dos. 

  Mas o deus, pe­los vis­tos, não aceitou o ofer­ec­imen­to e re­jeitou o sacrí­fi­co daque­le po­bre di­abo. 

  Num ím­peto, to­mou e en­ris­tou o tri­dente que, de lá de onde ele es­ta­va, se veio alon­gan­do, alon­gan­do e crescen­do, deixan­do uma som­bra ne­gra so­bre o mar. Fo­mos to­dos sacu­di­dos pe­lo em­bate do navio com o tri­dente e se­gurá­mo-​nos onde pude­mos. De­pois ou­vi­mos um ranger medonho, co­mo se o navio es­ta­lasse por to­das as jun­tas e sen­ti­mo-​nos lev­an­ta­dos no ar, a grande al­tura. A al­gazarra, a bor­do, trans­for­mou-​se num ur­ro unís­sono, de en­tremeio com gri­tos agu­dos, es­tal­idos das madeiras, e o ma­traque­ar da hélice ro­dan­do em seco. 

  Al­can­do­ra­dos às al­turas, víamos o deus muito pe­queno, lá ao fun­do, se­gu­ran­do o bar­co na pon­ta do tri­dente. Os ol­hos ful­gu­ravam-​lhe dum ver­mel­ho vi­vo que fe­ria o tom es­mer­al­da-​verde do mar.

  De­pois de al­gum tem­po, foi baixan­do de­va­gar o navio que após um em­bate pe­sa­do na água se fi­cou a balouçar. Na ponte, es­tá­va­mos to­dos en­char­ca­dos. O capitão tin­ha per­di­do o quépi. Afor­tu­nada­mente, ninguém caiu à água. 

  Quan­do pude­mos lev­an­tar-​nos já o deus es­per­ava de no­vo, a umas trin­ta braças. 

  O capitão, ir­ri­ta­do, sacud­iu o dól­man mol­ha­do, chamou o ir­lân­des, os sipaios e or­de­nou: 

  -Não ha­ja dúvi­da! É pre­ciso ir lá abaixo out­ra vez! 

  Aproveit­ei a aber­tu­ra da can­cela e pas­sei com o co­man­dante e os out­ros para a es­ca­da, ap­in­ha­da de in­dí­ge­nas ater­ror­iza­dos. Movi­men­tá­va­mo-​nos com di­fi­cul­dade ao lon­go daque­le aglom­er­ado, que os sipaios mal con­seguiam romper à força de en­con­trões e coron­hadas: 

  No per­cur­so, ou­sei per­gun­tar ao capitão: 

  -Mas o que é is­to ago­ra? Não me di­ga que vai mes­mo faz­er a von­tade daque­le bruxo chamus­ca­do, capitão. Há que nos por­tar­mos c