o­mo gente civ­iliza­da, c'os di­abos! Por quem é! Sac­ri­fí­cios hu­manos é que não ... 

  O capitão parou um in­stante e ol­hou para mim, ira­cun­do. A bo­ca trem­ia-​lhe, no es­forço para não romper a prague­jar in­con­sid­er­ada­mente. Volveu-​me, com um es­gar ma­lig­no:

  -Civ­iliza­do, hem, doutor? É fá­cil falar, mas eu é que ten­ho a re­spon­sabil­idade por es­ta pas­sara­da to­da que aqui vai. Civ­iliza­do, se cal­har, foi o checo Min­ni­an­ic que man­dou dis­parar um tiro de peça con­tra aqui­lo e teve o navio des­feito, trit­urad­in­ho, moí­do em pedac­in­hos pe­quenos salpi­ca­dos pe­lo mar. Era is­to que o doutor que­ria? Ou civ­iliza­do co­mo o chinês Tao Ling que se me­teu a faz­er um dis­cur­so pe­lo por­ta-​voz, a pro­por ne­go­ci­ações, e o navio se lhe abra­sou to­do em fo­go e foi ao fun­do feito em tor­res­mos? Pois, se é pre­ciso sac­ri­ficar uma criatu­ra para sal­var uma remes­sa de­las sac­ri­fique-​se. Is­to, sim, é que é jus­to. Pe­lo menos é cá a min­ha ideia de civ­iliza­ção ... 

  E, dizen­do is­to, ol­ha­va para o ir­lân­des, que, muito sério, sacu­dia a cabeça em aprovação, em­bo­ra só tivesse po­di­do adi­vin­har o sen­ti­do ger­al do dis­cur­so. 

  Es­tá­va­mos ago­ra no su­jo con­vés, cheio de gente. De vez em quan­do, por uma fugaz brecha en­tre os cor­pos es­curos, en­cadea­va-​me o re­splen­dor do deus, fais­can­do co­mo uma réstea in­stan­tânea de sol. 

  Pas­san­do o ol­har em vol­ta, o capitão me­dia o cír­cu­lo de gente que o ol­ha­va sus­pen­sa, ago­ra em silên­cio. Cor­pos e vestes es­tavam ain­da repas­sa­dos de água, dos baldões do bar­co. Restos de es­puma bor­bul­havam com um ruí­do ca­vo, pe­los em­bor­nais, pon­tuan­do a ex­pec­ta­ti­va ten­sa, apa­vo­ra­da. 

  A cus­to, o co­man­dante deu uns pas­sos. Aos seus movi­men­tos, to­dos se com­prim­iam ain­da mais uns con­tra os out­ros. 

  De súbito, o capitão levan­tou o braço e apon­tou uma ado­les­cente que, an­in­ha­da con­tra a mãe, nos fi­ta­va com grandes ol­hos de me­do. 

  -Tragam-​me aque­la além -disse ele. 

  Os dois sipaios adi­antaram-​se e agar­raram bru­tal­mente a jovem por um braço. A mãe de­ba­teu-​se e al­guns na­tivos es­quáli­dos ges­tic­ularam em vol­ta com ar ameaçador. E foi de roldão, no meio de uma grande gri­ta que to­dos subi­mos as es­cadas até à ponte. Os sipaios dis­tribuíam coron­hadas quase ao aca­so, o capitão de mãos aber­tas, de­ba­ten­do-​se, force­ja­va con­tra a mole de gente. Eu de­fendia-​me dos golpes que vin­ham de to­dos os la­dos e ten­ta­va, ao mes­mo tem­po, lib­er­tar a ra­pari­ga dos sipaios, o que da­va um grande e con­fu­so sar­il­har de gestos. 

  Fi­nal­mente chegá­mos à can­cela, onde o resto da trip­ulação, de ar­mas em riste, nos aju­dou a pas­sar à ponte, à cus­ta de al­guns lenhos em cor­pos mais atre­vi­dos. Es­tá­va­mos to­dos ofe­gantes. Mal con­ti­da pelas ar­mas aper­radas e pe­los sabres que os cúlies bran­di­am, uma tur­ba­mul­ta par­da con­cen­tra­va-​se pelas es­cadas, in­sul­tan­do-​nos, alçan­do gestos ameaçadores. Chover­am restos de cor­doa lha, pedaços de pau, de­tri­tos. En­tre nós, muito en­col­hi­da, a ra­parigu­in­ha trem­ia de me­do, a cara en­car­di­da cor­ri­da de lá­gri­mas. 

  Aproveit­ei a breve pausa, en­quan­to to­dos nos en­tre­ol­há­va­mos, para me di­ri­gir ao capitão, que se me an­te­cipou, limpan­do o suor com um grande lenço ver­mel­ho de­bru­ado a azul. 

  -Eu já tin­ha avisa­do o doutor para que não se metesse nis­to. Ai tin­ha, tin­ha ... Ve­ja lá. Ol­he que is­to é pre­ciso é que to­dos fiquem bem .. . 

  Neste mo­men­to, a figu­ra do deus, gi­gan­tesca, co­bria uma grande part