e do céu pairan­do por so­bre o navio. De sem­blante crispa­do, braços cruza­dos, pare­cia con­tin­uar à es­pera. O seu car­ro doura­do, en­tre­tan­to, cara­colea­va soz­in­ho por en­tre as águas, con­duzi­do pe­los in­sól­itos cav­al­os de tiro. 

  -Ouça capitão -in­sisti eu -, você quer, com um sac­ri­fí­cio hu­mano, aplacar um deus, mas o que vai faz­er, no fun­do, é sac­ri­ficar-​nos a to­dos através dessa ra­pari­ga. Com­preen­da a re­spon­sabil­idade que tem, homem! Es­sa moça que você quer en­tre­gar àquele mon­stro ilu­mi­na­do es­tá a rep­re­sen­tar-​nos a nós to­dos. Com ela so­mos to­dos, percebe, to­dos, você, eu, os pas­sageiros, to­dos, que pag­amos o trib­uto. To­dos fi­camos su­jeitos à von­tade daque­le fig­urão de­spóti­co, à mer­cê do que ele queira. Não o au­tor­izo a en­tre­gar-​me a mim, a en­tre­gar es­ta gente to­da na figu­ra daque­la moça! 

  -Ol­he, doutor -e o capitão fala­va muito de­pres­sa, al­te­an­do a voz. -Ol­he, doutor, ago­ra não ten­ho tem­po para doutri­nas. Eu cá sou um homem práti­co, ou não tin­ha chega­do a es­ta idade. Is­to aqui é co­mo se fos­se a ra­posa a roer a pa­ta pre­sa, en­tende? O que é pre­ciso é que to­dos fiquem bem, ou pen­sa que é com gos­to que dou a catra­ia? 

  E, em­per­ti­gan­do-​se, de so­brol­ho der­rib­ado: 

  -Ora arrede-​se para lá, se faz fa­vor, ou tê­mo-​la ar­ma­da ... 

  Ain­da ten­tei dar mais razões, ar­gu­men­tar, con­vencer, mas, a um gesto enér­gi­co do co­man­dante, os dois sipaios levaram a mocin­ha sub­mis­sa para o pon­to em que antes es­tivera o vel­ho. A sua pe­que­na sil­hue­ta es­cu­ra, en­feza­da e en­col­hi­da, con­trasta­va com o cor­po re­sp­lan­de­cente do deus, em fun­do. 

  En­tão atirei-​me para di­ante, aos gri­tos. Da bal­búr­dia que se seguiu, ape­nas recor­do o grego, muito fleumáti­co, pirisca ao can­to da bo­ca, a alçar uma big­ota de fer­ro so­bre mim, que des­maiei com a pan­ca­da. 

  Acordei na cab­ina com o capitão a meu la­do, a humede­cer-​me a tes­ta com um trapo mol­ha­do. De­mor­ou al­gum tem­po antes que a cara gor­da, mal bar­bea­da, me apare­cesse níti­da, fo­ca­da. Ele sor­ria, prazen­teiro: 

  -En­tão, já ar­ri­bou? Ol­he que tem os ... bem ... a pele du­ra, doutor. O gajo chegou-​lhe forte, hem? Ele man­da-​lhe pedir muitas de­scul­pas. E, bem vê, dadas as cir­cun­stân­cias ... 

  O navio sin­gra­va ago­ra célere, a to­da a força das máquinas, num ruí­do atroador. So­er­gui­do na ca­ma, com a cabeça a late­jar, os acon­tec­imen­tos de há pouco voltavam-​me lenta­mente à memória. 

  Se­gurei br­us­ca­mente o capitão por um braço: 

  -Que se pas­sou? Que é da ra­pari­ga?

  -Cal­ma, doutor -re­comen­dou o capitão com bran­dura -, não se amofine que ficaram to­dos bem. A ga­ia­ta es­tá ri­ja e sã, lá em baixo, com os pais. 

  E, ofer­ecen­do-​me um cigar­ro, con­tou-​me que, na al­tura da zara­ga­ta, lo­go de­pois de o grego me ter bati­do, deu-​se um grande es­tron­do nos ares e a aparição sum­iu-​se, de re­pente, sem deixar ras­to. Eles ain­da aguardaram um pouco, na ponte, não fos­se a avan­tes­ma re­gres­sar, com as suas ex­igên­cias. Mas na­da mais se pas­sou e tu­do voltou à nor­mal­idade. O mar es­ta­va des­im­pe­di­do e a ro­ta prosseguia, sem mais per­calços, as máquinas muito lançadas para re­cu­per­ar o tem­po per­di­do. 

  -Capri­chos lá dos céus, ou do que quer que se­ja co­men­tou o capitão en­col­hen­do os om­bros. -Vá-​se lá saber ... 

  In­sisti para que me deix­as­se ver a moça com os meus próprios ol­hos. Ele acedeu, cheio de paciên­cia, e am­parou-​me até aos primeiros de­graus da es­ca­da da ponte, de onde pude ob­ser­var a ra­pari­gu­ita, que