 dormia tran­quil­amente en­rosca­da no tabua­do, jun­to a um magote de gente que fala­va baixo e fu­ma­va er­vas equívo­cas. 

  A vi­agem durou ain­da mais dois dias em que re­cu­perei menos mal do hematoma que a pan­ca­da me cau­sou na tes­ta. À mesa dos ofi­ci­ais pouco se falou nos acon­tec­imen­tos de antes. Em to­do o ca­so, pude apu­rar que o deus, que, com a min­ha for­mação clás­si­ca e ja­cobi­na, eu tin­ha iden­ti­fi­ca­do vaga­mente com Posí­don, havia si­do vis­to pe­lo capitão e pe­lo ir­lân­des co­mo uma es­pé­cie de S. Pe­dro, de túni­ca ar­regaça­da, içan­do o navio na sua rede de pescador, pe­los sipaios, co­mo Káli, a deusa san­grenta, com sua mul­ti­dão de braços, sor­rindo hedion­da­mente, pe­los cúlies co­mo um imen­so dragão on­deante e es­panador de águas e, provavel­mente, por ca­da um dos pas­sageiros, em con­formi­dade com as suas rem­inis­cên­cias próprias. 

  Con­fes­so que não cheguei, en­fim, ao cais de Car­van­gel os­ten­tan­do o porte dig­no e im­po­lu­to que es­per­ari­am de mim os pe­quenos dig­nitários maquil­ha­dos e vesti­dos de com­pri­das túni­cas col­ori­das que me es­per­avam em ter­ra. Em vez do ca­pacete de cor­tiça, muito deco­roso, que de­cer­to que­ri­am ver os sur­pre­sos cortesãos, rodea­va-​me a cabeça uma com­pres­sa de lin­ho, sofriv­el­mente limpa, mal aman­ha­da pe­lo capitão. 

  Este veio de­spedir-​se de mim, com um aper­to de mão efu­si­vo, dizen­do-​me: 

  -E de­sculpe se tem al­gu­ma razão de queixa. Acon­sel­ho-​o, na vol­ta, a es­per­ar pe­lo avião de car­reira. Já vê, doutor, sem­pre é mais có­mo­do, e, nes­tas coisas, é pre­ciso é que to­dos fiquem bem ... -E, hes­itan­do: -Es­tive a pen­sar, sabe, e parece-​me que o ami­go, no meio dis­to tu­do, se por­tou a pre­ceito ... 

  Re­cu­sei a cadeir­in­ha que os do séquito me ofer­eci­am e di­ri­gi-​me a pé para o palá­cio, acom­pan­hado da min­ha vis­tosa es­col­ta.

  As três notí­cias do Di­abo 

  À es­pera de trans­bor­do, um ami­go meu atar­dou-​se nu­ma tas­ca fe­dorenta de San Pelayo, beben­do tequi­lla e jo­gan­do ao Mod­elo. O Mod­elo é um jo­go de car­tas a dois que lem­bra o Cra­paud. Em ca­da vaza, uma car­ta lança­da obri­ga a mu­dar to­das as out­ras dis­postas na mesa, pe­lo que o jo­go ex­ige uma sagaz ca­paci­dade de cál­cu­lo. Nes­sa noite, o meu ami­go jo­gou com o Di­abo, que se ap­re­sen­ta­va sob a for­ma de um maru­jo hir­su­to, baixo e grosso, de dente de ouro e id­ioma com­pósi­to. O meu ami­go sabia que o out­ro era o Di­abo porque chis­pa­va faís­cas o tam­po de már­more sem­pre que o roçavam os co­tove­los pe­lu­dos do seu ad­ver­sário.

  Tan­to be­beu o Di­abo que en­trou a perder e a faz­er con­fidên­cias. No úl­ti­mo jo­go, apos­tou um seg­re­do que sabia e a der­ro­ta lev­ou-​o a cumprir a in­dis­crição. As­sim, rev­el­ou ao meu ami­go que, na in­fini­ta tra­ma de causal­idades que se op­er­am no mun­do, três quadros há tão pos­síveis de ocor­rer co­mo qual­quer out­ro, des­de que cer­to pe­queno even­to chame os peri­gos e solte as catástro­fes. 

  Poderá as­sim ser que, uma noite, a sam­pana do mestre pescador Tao Li, a li­dar nas águas de Mala­ca, muito ao largo, ar­raste uma rede derivante, cu­jo ar­raçaz, aos baldões pelas areias do fun­do, irá deslo­car uma car­ga ex­plo­si­va de pro­fun­di­dade, lança­da em tem­pos pe­lo de­stroy­er aus­traliano Glo­ri­ous Flag, em manobas de fo­go re­al naque­la zona. 

  Reg­ula­da para eclodir a 60 braças de pro­fun­di­dade, a car­ga não de­fla­grou en­tão e foi pousar tran­quil­amente nas pro­fun­dezas, en­tre uma for­mação de coral e um ban­co de ané­monas, não longe do lu­gar em que se abre uma rav­ina abrup­ta