, es­tre­ita e fun­da. 

  Im­pel­ida pela rede, a car­ga deslizará por um ligeiro de­clive, hes­itará en­tre o en­cal­har num troço de rocha ou con­tin­uar cam­in­ho e pre­cip­itar-​se-​á, en­fim, pela fen­da pro­fun­da e es­cu­ra, de­spovoa­da de vi­da. 

  No tombo, dará de si o mecan­is­mo de ex­plosão, há muito in­erte, e a sam­pana de Tao Li, sacu­di­da pe­los bor­botões das on­das de choque, cabri­olará à toa por en­tre o re­lam­pe­jar das es­ca­mas de mil­hares de peix­es mor­tos. 

  Não terão os chins, porém, muito tem­po para se es­paventarem, porque os movi­men­tos das águas não se aqui­etarão. E já um bo­queirão, hi­ante e ne­gro, se abre em re­de­moin­ho ca­da vez mais largo e faz a sua primeira ví­ti­ma do xave­co pesqueiro e sua com­pan­ha. 

  É que a ex­plosão virá fend­er a fi­na parede ro­chosa que, no fun­do do mar de Mala­ca, dá para os imen­sos refe­gos ocos da ter­ra, ca­pazes de com­por­tar mil oceanos nos seus côn­cavos labir­in­tos. 

  En­tão, num rugi­do medonho, cor­rerá o avas­sal­ador re­de­moin­ho, en­goli­dor de navios e por­tos, de­stru­idor de faróis e diques, ar­rasador de il­has e roubador de pra­ias. To­dos os oceanos serão sul­ca­dos de cor­rentes ver­tig­inosas, em car­reiras de es­cuma, e não so­brarão mais nave­gações. E to­das as águas em tu­mul­to acor­rerão ao por­to em que fi­ca­va o es­tre­ito de Mala­ca, para se pre­cip­itarem, troan­do, nas pro­fun­das em aber­to.

  Os ares acom­pan­harão o tur­bil­hão das águas e por to­do o la­do se re­volverão, em torvelin­ho, fu­racões nun­ca vis­tos e ven­tos zu­nidores zurzirão, em cor­re­ria, ar­vore­dos e ed­ifi­cações. 

  De­scom­pas­sa­dos jo­gos de pressão farão bor­bul­har vul­cões in­sus­peita­dos, soltar-​se-​á o enx­ofre pelas frac­turas nos cam­pos antes cul­ti­va­dos, a ter­ra en­rugar-​se-​á e es­treme­cerá a som dos el­emen­tos sem norte. 

  Cin­quen­ta e dois imen­sos dias per­du­rarão as con­vul­sões. Ao quin­quagési­mo se­gun­do dia, aqui­eta­dos os ares e var­ri­dos os úl­ti­mos restos de nu­vens, o Sol virá a bril­har, es­cal­dante, so­bre char­cos pan­tanosos, féti­dos, de águas paradas e ne­gras, num cal­do bor­bul­hante, vis­coso de po­dridões, ao fun­do de vales abrup­tos e limosos, nos sí­tios em que antes verde­javam oceanos. 

  Atur­di­dos, no al­to das mon­tan­has, os poucos so­bre­viventes preparar-​se-​ão para en­frentar os de­ser­tos. 

  Ou pode ser que nas Pam­pas de Gex­fi­coatl, pri­vadas de chu­va por muito ano, a ter­ra grete e os peões se ar­rastem es­quáli­dos por en­tre as os­sadas bran­cas dos an­imais mor­tos e nas aldeias abrasadas se lev­an­tem tu­mul­tos ur­di­dos em rai­va e fome. O coro­nel Frank Gala­had, co­man­dante da base mil­itar amer­icana de Sanado­lor, sus­peitará de que para bom sossego das pop­ulações não bas­tarão os far­dos de víveres, nem sem­pre ac­er­ta­dos, avi­da­mente dis­puta­dos por mul­ti­dões faméli­cas, que o seu gov­er­no haverá por bem en­viar em bo­ju­das aeron­aves. 

  Há muito tem­po dester­ra­do naque­las par­agens, o co­man­dante ver-​se-​á pro­fun­da­mente afec­ta­do por aque­la melan­co­lia a que os médi­cos chamam «neu­rose das pam­pas» e pas­sará muitos serões in­sones a in­ter­rog­ar as pe­dras de ge­lo do scotch so­bre a for­ma de sair daqui­lo e tornar de no­vo às planí­cies ser­enas, sem fomes, sem mortes, sem ameaças ao pau­lati­no sossego daque­la base per­di­da, que ox­alá, pen­sará o coro­nel, o con­tin­ue a ser, para tran­quil­idade de to­dos e, so­bre­tu­do, sua. 

  Um dia, es­quadrin­han­do os cam­pos des­ola­dos, cresta­dos do sol, verá ao longe pas­sar uma pro­cis­são de gente mal­trap­ida atrás de do