e a primeira teste­munha verá pro­jec­tar-​se no céu há-​de es­tar trans­for­ma­do, pe­lo meio-​dia, nu­ma ro­tun­da col­una de águas, obra de vinte mil­has de diâmetro, com qua­tro car­gueiros, um pal­habote, uma vede­ta de cos­ta, dois aviões e um balão me­te­orológi­co a chocal­harem-​lhe no bo­jo. 

  Ao meio da tarde, será já enx­er­ga­da da cos­ta, onde os habi­tantes ater­ra­dos verão o hor­izonte em­pareda­do por um muro de água irisa­do, movente, fervil­hante, de que se poderá ou­vir o ron­co longín­quo, e que es­con­derá o Sol duas ho­ras mais ce­do. 

  Nes­sa noite, nos por­tos, ver­ificar-​se-​á que to­das as marés vão lou­cas e que o nív­el do mar, bas­to pi­ca­do, se situ­ará muitos met­ros abaixo do nor­mal. As do­cas fi­carão a seco, de­sco­brem-​se os lo­dos em vol­ta dos diques e dos cais e, muito ao longe, nas pra­ias deitadas a perder de vista, abrem-​se abis­mos abrup­tos, em que as águas, ten­sas, se agi­tam. 

  Cor­rerão alarmes por to­do o mun­do e não fal­tarão ten­ta­ti­vas para en­ten­der e de­be­lar a inusi­ta­da ocor­rên­cia, que lavrará im­paráv­el e im­per­tur­ba­da, rev­el a to­das as in­ter­venções. Um sis­tema in­teiro de leis físi­cas e quími­cas sus­penderá a sua roti­na, der­ro­can­do com fragor, per­ante a con­fusão dos ci­en­tis­tas e das uni­ver­si­dades. 

  Nos dias próx­imos, num tur­bil­hão cres­cente que en­volverá ter­ras e ares e na­da deixará lev­an­ta­do no seu per­cur­so, os mares serão sug­ados pela de­scon­forme trom­ba e o nív­el das águas irá pro­gres­si­va­mente baixan­do até que dos oceanos mais pro­fun­dos restem ape­nas char­cos lo­dosos e apo­dreci­dos, à es­pera que o Sol os queime e leve. 

  Nu­ma es­tran­ha partenogé­nese, um pe­queno plan­eta líqui­do ir-​se-​á dis­tan­cian­do da ter­ra e deslizará, verde, tomba­do no in­fini­to. 

  En­tão romper-​se-​á a trom­ba, num re­bate súbito, com uma fi­nal as­per­são de poal­ha líqui­da que o Sol e os so­los lo­go ab­sorverão. 

  Os home­ns, ain­da in­cré­du­los, sairão en­tão dos seus es­con­der­ijos e pen­sarão que faz­er do de­ser­to. 

  Ou pode ser que o alquimista de Dassvidâ­nia um dia en­con­tre en­fim a palavra. 

  Des­de muito no­vo, o alquimista dedi­cou a vi­da à trans­mu­tação dos metais, na con­vicção de que ela ocor­re­ria quan­do fos­se pro­nun­ci­ada a palavra cer­ta. E, em frente de um lin­gote de fer­ro, pou­sa­do na grande mesa do seu vel­ho so­lar, per­to de uma janela donde se al­cançam a Lua e os as­tros e as tem­pes­tades, apli­cou-​se com méto­do ao seu pro­jec­to. 

  Começou por séries de três le­tras, a par­tir de AAB, ABA, BAA, sem ex­cluir as palavras gas­tas pe­lo uso cor­rente e, uma vez es­go­tadas as séries, pas­sa­va metic­ulosa­mente às seguintes, reg­is­tan­do-​as uma a uma, por or­dem, em túrgi­dos cader­nos. 

  Quan­do, ao fim de muitos anos, as pare­des dos salões se en­con­trarem cober­tas de cader­nos, con­tendo o reg­is­to das palavras até meio da série de sete le­tras, o alquimista pro­nun­cia­rá e lançará ao pa­pel a palavra cer­ta. 

  Lo­go ou­virá um es­tal­ido seco e ol­hará so­bres­salta­do o lin­gote de fer­ro que se man­terá, porém, tran­qui­lo e in­al­ter­ado, no seu lu­gar ha­bit­ual, so­bre a mesa. 

  Um sen­ti­men­to in­qui­eto de in­co­mo­di­dade levará o vel­ho a es­quadrin­har o salão, em bus­ca da origem do ruí­do. En­tão ver­ifi­cará que o va­so de vidro, pou­sa­do no peito­ril da janela, onde recol­he chu­vas e or­val­hos, há pouco meio de água pu­ra, es­tará ago­ra meio de mer­cúrio. 

  Es­que­cerá o vel­ho o tra­bal­ho de uma vi­da, e de­sprezará a trans­mu­tação procu­ra­da por aque­la que en­con­