 um re­boque de popa, não per­mitin­do, em nen­hum ca­so, que al­guém do jun­co subisse a bor­do. 

  De súbito, dois arpéus vier­am pe­lo ar, amar­ra­dos a ca­bos de cairo, e o em­bate com o jun­co deu-​se mais ce­do do que se­ria de es­per­ar. Um tiro ri­bom­bou e aba­teu um mar­in­heiro que se de­bruça­va du­ma enxár­cia, aten­to à manobra. No meio do es­trale­jar das det­on­ações, uma chus­ma de chi­ne­ses, em grande alar­ido, gal­gou a amu­ra­da e in­va­diu o con­vés, brandin­do cim­itar­ras e piques. 

  Lo­go o ime­di­ato lh­es fez frente, muito de ri­jo, à tes­ta do seu grupo, e to­das as ar­mas aprestadas a bor­do, num es­tron­dear medonho que encheu o con­vés de fu­ma raça, alve­jaram a pi­ratagem sur­preen­di­da. A lu­ta foi muito sumária e os in­va­sores re­cuaram de at­ro­pe­lo, de­spen­han­do-​se os poucos so­bre­viventes pe­lo por­taló que lh­es deu en­tra­da, sem cuidarem dos cadáveres dos com­pan­heiros que ali ficaram prostra­dos. 

  Na con­fusão de fu­mos, tiros e ur­ros, o capitão lo­brigou o ime­di­ato se­guro a um dos ovéns do mas­tro grande, pés na mesa da enxár­cia, a faz­er pon­taria de revólver para o jun­co. Nes­sa al­tura, um pi­ra­ta ma­gricela, pen­dura­do nos en­frechates, volteou num gesto largo a cim­itar­ra e lo­go foi abati­do por um dos de bor­do. Na con­fusão, o capitão não dis­tin­guiu por­menores, mas sus­peitou de que o ime­di­ato tivesse si­do forte­mente gol­pea­do. 

  Mas já os der­radeiros pi­ratas se refu­giavam, mal feri­dos, a bor­do do jun­co, em es­bafori­da al­gazarra e es­trépi­to de tiroteios per­di­dos e, cor­tadas as amar­ras a golpes frenéti­cos de macha­do, o xave­co dis­tan­ciou-​se ao sa­bor das on­das, obra de trin­ta braças.

  Das amu­radas e gáveas do Maria Ed­uar­da, a mar­in­hagem in­sis­tia nu­ma fuzi­lar­ia cer­ra­da, a cober­to dos va­pores de pólvo­ra que ilu­di­am os dis­paros in­cer­tos dos do jun­co. 

  En­tão, o capitão viu chega­do o mo­men­to de us­ar a caron­ada. Reg­ula­da a cu­la­tra pe­lo calafate, pare­ceu a to­dos bem fei­ta a pon­taria e lo­go se chegou a mecha à es­cor­va e o tiro par­tiu, ras­ante. A grana­da deu cheio a meia-​nau, levan­tou es­til­has, re­volveu con­fusões, fez es­voaçar cor­dames e balouçar moitões e deixou um rom­bo hi­ante e fu­mar­en­to no con­vés do jun­co. 

  Mais certeiros, menos certeiros, os tiros de caron­ada suced­er­am-​se até que o pe­queno can­hão fi­cou quase em brasa, ameaçan­do rup­tura, e as granadas ape­nas lev­an­tavam grandes cachões de água, muito para aquém do amon­toa­do caóti­co e in­erte do jun­co, vis­to já muito à dis­tân­cia. 

  O co­man­dante man­dou en­tão que se sus­pendesse o tiroteio, tor­na­do in­útil, e deu-​se a in­ven­tari­ar danos e baixas. Um pe­queno fo­co de in­cên­dio que lavra­va jun­to à es­cotil­ha dos alo­ja­men­tos prestes foi abafa­do a baldes de areia e, para além de al­guns furos e ras­gões no ve­lame, ape­nas se reg­is­taram ar­ran­hões de balas nas amuras e na ponte. 

  Meia-​dúzia de cadáveres de pi­ratas semi­nus que se atrav­es­savam no con­vés em pos­turas bizarras foram, sem mais preparos, ati­ra­dos bor­da fo­ra, sem que al­guém curasse de saber se lh­es ia so­pro de vi­da. 

  So­braram os cor­pos do pi­lo­to e de um maru­jo las­car, muito pas­sa­dos de golpes, que lo­go foram cober­tos com um olea­do. E um mar­in­heiro con­tri­to, muito com­pungi­do, veio traz­er a cabeça do ime­di­ato, que fo­ra en­con­tra­da de­baixo da enxár­cia de bom­bor­do, meio es­con­di­da por um ro­lo de cor­doa lha. 

  Deu o capitão or­dens para que se vare­jasse o navio e se re­volvessem to­dos os es­con­sos, mes­mo os mais ab­sur­dos, em bus­ca do cor­po que com­ple­men­ta­v