a aque­la cabeça. Mas as pesquisas de­ram em na­da. 

  Da ob­ser­vação do mar tam­bém na­da re­sul­tou. Caí­da a noite, ain­da se avançavam lanter­nas so­bre as águas e se to­ca­va o sino, mais nu­ma demon­stração de reverên­cia e num descar­go de con­sciên­cias do que na es­per­ança de que o cor­po viesse à tona e se ofer­ecesse aos que o procu­ravam. 

  Nes­sa noite, o capitão Pas­san­ha viria a adorme­cer com a re­spon­sabil­idade de dois cor­pos, al­in­hados na tol­da em pa­di­olas de lona, e de uma cabeça sem cor­po, dis­pos­ta so­bre um caixão de ar­roz, en­tre ve­las ace­sas e sob a guar­da re­speitosa de mar­in­heiros em turnos.

  O próx­imo por­to de es­cala, Lourenço Mar­ques, a um mês da der­ro­ta ron­ceira do Maria Ed­uar­da, pun­ha de la­do a pos­si­bil­idade de con­ser­vação dos cor­pos para pos­te­ri­or fu­ner­al em ter­ra. Al­iás, pen­sa­va o capitão, fu­ner­al de homem do mar mor­to no mar quer-​se no mar, em con­formi­dade com as re­gras e prax­es da mar­in­haria, e soa­va co­mo deslus­tre à memória dos fi­na­dos a ideia de al­ter­ar o ru­mo e de­sem­bar­cá-​los em qual­quer por­to de gen­tios. 

  Acu­dia, é cer­to, ao capitão aque­la su­per­stição por­tugue­sa de que os cadáveres lança­dos ao mar no hem­is­fério norte flu­tu­am sem­pre apon­ta­dos a Oeste, por mais las­tro que se lh­es amarre, mas o capitão já tin­ha vis­to muito mar, pres­en­ci­ado muito lança­men­to e con­fi­ava mais nas leis físi­cas da imer­são dos cor­pos do que nas lendas dos anti­gos.

  Porém, as­sente a cer­imó­nia do lança­men­to ao mar dos de­fun­tos, um prob­le­ma de es­qui­va solução se ap­re­sen­ta­va ago­ra ao arguto capitão Pas­san­ha. Os cadáveres dos dois mar­in­heiros, vá que não vá, deslizari­am do pas­sadiço para as pro­fun­das, en­voltos em panos de ve­las, com duas big­otas de fer­ro aos pés, en­char­ca­dos de água ben­ta pela maru­ja­da for­ma­da, de­pois de com­pe­ten­te­mente li­do o Veni Cre­ator. Mas que tra­to dar à cabeça do ime­di­ato? In­con­ce­bív­el a ideia de um pe­queno far­do re­don­do a re­bo­lar pela pran­cha e a de­spen­har-​se nas águas com um ruí­do pí­fio, en­tre far­ra­pos minús­cu­los de es­puma. 

  Já o sol ver­mel­ho daque­las par­agens tin­gia de tons púr­pu­ra a cab­ina do capitão, quan­do este to­mou a de­cisão defini­ti­va e ir­revogáv­el. Havia que ar­ran­jar um cor­po para aque­la cabeça e pro­ced­er dig­na­mente ao lança­men­to. 

  Ce­do, na man­hãz­in­ha seguinte, o capitão, homem afeito a de­cidir soz­in­ho, sem con­tas prestadas a Deus ou ao Di­abo do que lhe ia nas de­cisões. re­solveu acon­sel­har-​se com o con­tramestre e o mestre calafate, os mais grad­ua­dos que vin­ham a bor­do. 

  E du­rante a primeira man­hã os pas­sos dos três home­ns, cir­cun­spec­tos, ressoaram en­tre o tra­que­te e o tombadil­ho, num pas­seio com­pas­sa­do de quem sope­sa res­oluções graves. 

  Trata­va-​se de en­con­trar meio de dar um cor­po condig­no à cabeça do ime­di­ato. Re­jeita­da a sug­estão de afeiçoar a cabeça a um far­do de estopas, cor­dame e des­perdí­cios de ve­lame, por ser ma­te­ri­al perecív­el que mal pode­ria sofr­er a água, al­guém lem­brou os san­tos de pau acondi­ciona­dos no porão, em­bar­ca­dos em Tim­or. Cor­tar-​se-​ia a cabeça a um de­les e em seu lu­gar adap­ta­va-​se a cabeça do ime­di­ato. Ao capitão não sor­riu o alvit­re, por várias razões: porque os san­tos er­am de madeira, com pen­dor para flu­tu­ar, porque o seu taman­ho não ex­ce­dia o cô­va­do e meio, o que des­de lo­go de­sajus­ta­va a cabeça e fi­nal­mente, porque não con­sid­er­ava tra­to de­cente para os de­spo­jos do ime­di­ato o fornecer-​lhe um cor­po pin