ta­do, en­volto em túni­cas ou saios gar­ri­dos, lavra­dos de ouropéis e es­tre­las de pur­pu­ri­na, muito à afeição de roupagem de en­tru­do.

  En­tão o mestre lem­brou que o co­zin­heiro já tin­ha si­do imag­inário, no Min­ho da sua ju­ven­tude, e sug­eriu pô-​lo a tra­bal­har nas can­tarias de már­more, lon­gas e pe­sadas, que trans­portavam para Lourenço Mar­ques. Porém, por maior em­pen­ho que mostrasse e pres­sa que desse a mal­ho e es­co­pro, não havia san­teiro que despachas­se pe­dra taman­ha em menos de um mês, tem­po su­fi­ciente para cor­romper os cor­pos e em­pes­tar to­do o mar Índi­co. 

  Em to­do o ca­so, chama­ram o homem, que lá veio, ataran­ta­do, des­bar­reta­do, a limpar as mãos ao aven­tal imun­do e a con­fir­mar a im­pos­si­bil­idade da obra em tem­po tão es­cas­so. E de pas­seio a três pas­sou a so­rum­báti­ca deam­bu­lação a pas­seio a qua­tro, com a figu­ra cinzen­to-​es­bran­quiça­da do co­zin­heiro a salti­tar, para cá e para lá, ao la­do dos out­ros.

  Ora foi pre­cisa­mente o tatebi­tate do co­zin­heiro quem, de­pois de mui­ta titubeação e palavras em fal­so, veio com a sug­estão lu­mi­nosa: ges­so, que se fizesse um cor­po de ges­so de pre­sa. O carpin­teiro es­cav­aria um molde de madeira, no que ele, com a sua ex­per­iên­cia de san­teiro tam­bém práti­co em tra­bal­hos de pau, aju­daria co­mo pudesse, ver­tia-​se o ges­so húmi­do den­tro da figu­ra e de­pois havia só que li­mar e dar-​se-​lhe o jeito fi­nal. 

  Chama­do o carpin­teiro à con­fer­ên­cia, lo­go este apreen­deu a ideia e se declarou com­pe­tente e co­op­er­ante em to­do o necessário.

  E, dis­pos­to no con­vés um largo fuste de madeira, os dois home­ns aplicaram-​se com grande ru­mor de marte­ladas e ran­geres de ser­ra. 

  O ran­cho desse dia, aman­hado pe­lo moço de co­zin­ha, veio ain­da mais in­fec­to e in­tragáv­el que o ha­bit­ual, mas ninguém a bor­do protestou, sabedores to­dos das tran­scen­dentes tare­fas ora atribuí­das ao mestre de co­zin­ha. Tam­bém o capitão, que con­vi­dou o con­tramestre e o calafate a al­moçar na sua cab­ina, teve boa bo­ca, sentin­do-​se já alivi­ado do prob­le­ma que o ator­men­ta­va, ao som das pan­cadas enér­gi­cas com que os dois artis­tas cas­ti­gavam a madeira. 

  Ao pôr do Sol, per­ante a trip­ulação for­ma­da no con­vés, o capitão po­dia, en­fim, di­ri­gir a cer­imó­nia fúne­bre. Um a um, os três cor­pos deslizaram pela pran­cha in­cli­na­da e de­spen­haram-​se solen­emente no mar. Ca­da baque foi sub­lin­hado com um tiro seco de caron­ada, nu­ma der­radeira hom­enagem aos de­sa­pare­ci­dos. De to­dos estes even­tos foi lavra­do o com­pe­tente ter­mo. 

  Dizem que na véspera do Juí­zo Fi­nal to­dos os seg­re­dos es­con­di­dos serão desven­da­dos e rev­ela­dos en­fim to­dos os mis­térios, co­mo nas paradas fi­nais dos jo­gos. En­tão, se­ria tam­bém ex­pli­ca­do aos home­ns o porquê daque­le cor­po tosco de ges­so, tal­ha­do in­gen­ua­mente, ao mo­do rús­ti­co do Min­ho, que se en­con­tra­va plan­ta­do a grande pro­fun­di­dade per­to da cos­ta de Sama­tra. 

  As­sim, pe­quei eu, an­te­ci­pan­do-​me a mostrar des­de já o que es­ta­va reser­va­do para sab­erdes muito de­pois.

  Que to­dos fi­cas­sem bem ... 

  Nos meus úl­ti­mos dias de férias no ar­quipéla­go de Shan­de­noor vier­am procu­rar-​me dois su­jeitos es­curos, muito ma­gros, bison­hos, que se diziam en­vi­ados do rei de Car­van­gel. Acon­te­cia que ao príncipe lhe tin­ha da­do para a melan­co­lia e pas­sa­va o tem­po a fab­ricar pa­pa­gaios de pa­pel col­ori­do, sem nen­hum in­ter­esse pelas coisas da gov­er­nação, o que deix­ava o vel­ho e go­to­so monar­ca pre­ocu­pa­do quan­to