 ao fu­turo do reino. As­sim me foram de­sco­brir naque­las il­has e recla­mar os meus cuida­dos, sem ol­har a de­spe­sas.

  Come­cei por re­cusar pol­ida­mente e in­dicar-​lh­es um médi­co meu con­heci­do de Bom­baim, o Dr. Shan­tana La­gador, muito rep­uta­do em psiquia­tria. Mas os homen­zin­hos não se con­vence­ram. Que­ri­am-​me a mim. E du­rante to­do esse dia seguiram-​me os pas­sos, co­mo dois cães cabis­baixos. 

  Um de­les, soube-​o mais tarde, era o próprio primeiro-​min­istro e o out­ro um dig­nitário im­por­tante, «por­ta­dor da es­pa­da do rei.»  ou coisa que o val­ha. Não creio que no ca­so de in­êx­ito lh­es es­tivesse prepara­da uma re­cepção par­tic­ular­mente fes­ti­va, porque am­bos fi­cavam muito sérios quan­do en­car­avam a hipótese -de­cer­to re­mo­ta, diziam -de re­gres­sarem ao país sem a min­ha com­pan­hia. 

  Fos­se por que fos­se -e a ver­dade é que nem sem­pre so­mos sen­hores das nos­sas de­cisões -acabei por tran­quil­izar os cav­al­heiros e garan­tir-​lh­es que es­taria em Car­van­gel na próx­ima quinzena, po­den­do eles, des­de já, seguir adi­ante e levar a no­va ao reino. 

  Os home­ns ficaram ju­bilosos, agrade­ce­ram-​me com grande alarde de reverên­cia ori­en­tal e lá os lev­ei à por­ta meio con­trari­ado e con­fun­di­do, quer pela res­olução que acaba­va de tomar e de que já me tin­ha ar­repen­di­do, quer pelas man­ifes­tações de re­con­hec­imen­to sub­serviente que me in­co­mo­davam, com tan­ta vé­nia e bei­jares de mão. 

  Re­solvi, pois, ficar mais uns dias em Shan­de­noor e aproveitar para bis­bil­ho­tar al­gu­mas il­has que ain­da não con­hecia. E du­rante uma se­mana, a es­calar cumeadas mon­tan­hosas cober­tas de ar­vore­do, ou aos baldões, em pa­raus de aluguer por en­tre as cavas do mar, nem me lem­brei do principez­in­ho neuróti­co nem da es­tran­ha em­baix­ada que me en­viaram. 

  Ao cabo deste tem­po, soube que tin­ha per­di­do a opor­tu­nidade de voar para Car­van­gel ain­da nesse mês. As car­reiras er­am men­sais e o úl­ti­mo táxi aéreo havia de­sco­la­do na véspera, al­iás em condições de nave­gação precárias. 

  In­dicaram-​me o fer­ry-​boat em que se trans­portavam, nes­ta época, os tra­bal­hadores sazon­ais que iam a Car­van­gel tra­bal­har nas plan­tações de si­sai, a largar por um dess­es dias, e re­comen­daram-​me, no ho­tel, que falasse pes­soal­mente ao capitão se que­ria um trata­men­to mais cuida­do. 

  Soube que ele era por­tuguês, co­mo eu, que se chama­va An­drade e que pode­ria en­con­trá-​lo à noite ra­zoavel­mente sóbrio, se com­pare­cesse ce­do, num bar do por­to chama­do O Néc­tar do Sé­ti­mo Pin­go Lu­mi­noso da Lua Cheia. 

  Trata­va-​se de um bote­quim meio es­con­di­do, nu­ma rua mis­eráv­el, mal assi­nal­ado por uma lanter­na de pa­pel, imun­da, que es­treme­cia ao ven­to. O capitão An­drade sen­ta­va-​se a uma mesa em que ori­en­tais ap­in­hados, luzi­dos de tran­spi­ração, apos­tavam desvairada­mente ao Fan-​Tan. 

  O capitão não pare­ceu muito en­tu­si­as­ma­do em levar-​me, e foi de má catadu­ra que me deu al­gu­ma atenção, por en­tre as ex­cla­mações rui­dosas dos jo­gadores. Num falar lento, ar­ras­ta­do, mor­tiço, procurou dis­suadir-​me e reme­ter-​me para o voo de avião do próx­imo mês. 

  Era um cin­quen­tão pe­sa­do, meio cal­vo, de bo­ca tor­ci­da por um eter­no cigar­ro, que ves­tia um dól­man, out­ro­ra bran­co, muito aper­ta­do, e se ex­prim­ia com uma forte pronún­cia alen­te­jana, num falar ex­pres­si­vo, em que, de quan­do em quan­do, se in­sin­uavam palavras mala­ias ou chi­ne­sas. 

  O fac­to de ser­mos pa­trí­cios [ele tin­ha nasci­do em Sines, eu em San­ti­ago] e de eu vi­ajar por