 con­ta do reizete de Car­van­gel, mais este que o primeiro, por cer­to, lá o con­vence­ram a alo­jar-​me na sua cab­ina.

  De­spediu-​me com um aceno mole e voltou ao seu jo­go, de ol­hos a bril­har.

  Antes, a re­matar o ajuste comi­go so­bre trans­porte e alo­ja­men­to, dis­sera-​me mecani­ca­mente, a propósi­to de na­da, uma frase que eu ain­da lhe havia de ou­vir muitas vezes du­rante a vi­agem: 

  -Ora pois en­tão. É pre­ciso é que to­dos fiquem bem ... 

  Quan­do no dia seguinte, muito ce­do, cheguei ao por­to, já o fer­ry-​boat, alarde­an­do a sua bran­cu­ra por en­tre a mas­sa par­do-​cas­tan­ha dos mil­hares de sam­panas e jun­cos que coal­havam as águas, pas­tosas, do rio, ron­ca­va o seu ter­ceiro avi­so. 

  Den­tro, re­ti­ra­da lo­go a pran­cha do pas­sadiço com os protestos de uma mul­ti­dão de cúlies lazar­en­tos que se ap­in­havam no em­bar­cadouro, tive de me movi­men­tar por en­tre um mol­ho aper­ta­do de gente seminua, de tur­bante gar­ri­do, aglom­er­ada em to­do o es­paço disponív­el. 

  Ao cimo das es­cadas que davam para a ponte, cober­tas de pes­soal ale­gre e pal­rador e suas trouxas, que mal deix­avam es­paço para subir pé ante pé, um sipaio de má catadu­ra, de tra­bu­co pe­sadís­si­mo a tira­co­lo, abriu-​me uma can­cela de fer­ro, com gestos lentos, cheios de au­tori­dade.

  De­pois veio-​me in­dicar, so­lene, o ca­marote do capitão, onde ar­rumei as min­has malas de­baixo de um di­vã im­pro­visa­do, jun­to a uma janela rect­an­gu­lar que se re­flec­tia on­du­lada­mente no tec­to de madeira. 

  En­tre a min­ha precária ca­ma e o be­liche do capitão me­di­ari­am uns vinte cen­tímet­ros e, para além de uma es­crivan­in­ha de cân­fo­ra, ata­ful­ha­da de pa­péis de bor­do, uma prateleira com es­cas­sos livros de mareação e um lavatório de louça col­ori­da, pouco mais cabia na cab­ina. Por cima do be­liche do capitão, uma gravu­ra emoldu­ra­da, em vidro fos­co, muito tra­bal­ha­do e col­ori­do, con­tin­ha N.ª S.ª dos Nave­gantes a ob­ser­var ser­ena­mente tu­do. 

  Ele, en­tre­tan­to, en­con­tra­va-​se na cab­ina do co­man­do, di­rigin­do a manobra, de­cer­to com­pli­ca­da pela den­si­dade do tráfego in­dí­ge­na que obri­ga­va a muito golpe de ro­da o pi­lo­to grego, e a um sil­var quase con­stante do api­to. 

  Ao fim de al­gu­mas ho­ras passá­va­mos, en­fim, o farol do vel­ho forte por­tuguês de Shan­de­noor, que nos salvou com um tiro de peça, a que re­spon­deu de bor­do uma tremen­da al­gazarra, em meio de grande ag­itar de panos col­ori­dos. 

  O navio ia pouco boieiro, atocha­do de gente e de far­dos. Os em­bor­nais quase rasavam a água, de on­das mansas e es­pes­sas do muito alu­vião que ar­ras­tavam para o mar. O nos­so re­du­to na ponte era rel­ati­va­mente tran­qui­lo, iso­la­do da tur­ba mul­ta que se com­prim­ia no con­vés e nos porões, de que nos chegavam o alar­ido e o ru­more­jar con­stantes. 

  O per­cur­so de­mor­ava uma se­mana, sem es­cala, pe­lo mar nu. Du­rante esse tem­po, pe­los primeiros três dias, o navio não forne­cia al­imen­tação e to­dos os em­igrantes teri­am de se haver co­mo pudessem. Ao quar­to dia, dis­tribuía-​se àquela gente uma sopa de er­vas e ar­roz, em grandes latas. A água es­ta­va raciona­da a duas canadas por pes­soa em to­da a vi­agem. 

  Eu era trata­do co­mo mem­bro grad­ua­do da trip­ulação. O capitão e eu tomá­va­mos as refeições na ponte su­pe­ri­or, com o pi­lo­to grego, muito moreno, que só fala­va chinês, e o maquin­ista ir­landês que sabia to­car canções melancóli­cas nu­ma gai­ta-​de-​beiços.

  O resto da trip­ulação, uns oito home­ns, ou er­am sipaios in­di­anos en­car­rega­dos de man­ter a or­dem, ou moços de con­vés, cúlie