s ágeis, dili­gentes e prestáveis. 

  Du­rante os primeiros tem­pos a vi­agem cor­reu bo­nançosa, sem história. De dia, o capitão da­va or­dens na ponte, de bar­reti­na ati­ra­da para a nu­ca, um braço descaí­do so­bre o pavês, mole­mente. De­pois do jan­tar, os três ofi­ci­ais jo­gavam um jo­go chinês, o Mah Jong, de que lo­go me es­cu­sei, preferindo ler umas no­tas de­baixo de um fanai, en­quan­to eles prague­javam na ponte em id­iomas vários, en­tre os es­tal­idos das peças de marfim na mesa desmon­táv­el. 

  No fi­nal de ca­da jo­go eu ou­via a voz do co­man­dante, por so­bre o es­trale­jar das peças recol­hi­das: 

  -Ora pois en­tão. É pre­ciso é que to­dos fiquem bem!

  O capitão, de vez em quan­do, vin­ha falar comi­go. Lamen­ta­va-​se de que a vi­agem fos­se monó­tona e de­se­ja­va-​me mel­hor sorte que este en­fa­do. Sabia muito so­bre aque­las par­agens, cos­tumes, gentes, tipos. In­dus­tri­ou-​me com por­menor so­bre os hábitos e pro­to­co­los da corte de Car­van­gel, não deixan­do nun­ca de in­sin­uar, dis­farçada­mente, a sua es­tran­heza por me ter presta­do a vis­itar um reizete tão ob­scuro. 

  Uma vez por out­ra, eu de­cidia dar uma vol­ta pe­lo navio. Aproveita­va a al­tura em que o ir­landês, já to­ca­do de gene­bra, de­scia até às pro­fun­das da casa das máquinas e o sipaio lhe abria a por­ta muito re­speita­dor e orgul­hoso do ba­ca­marte com que as­se­gu­ra­va a or­dem a bor­do. 

  O capitão não aprova­va es­tas min­has sur­tidas. No primeiro dia de vi­agem chegou a opor-​se com en­er­gia a que eu de­scesse. Que era para não ver o que eles co­mi­am dizia-​me -, para não ficar ag­oni­ado. 

  De­pois hou­ve um par­to com­pli­ca­do, e o próprio capitão me veio chamar para dar as­sistên­cia. En­quan­to eu tra­bal­ha­va, com a aju­da de mul­heres es­curas e tristes, o capitão fu­ma­va, ol­han­do os longes do mar. 

  -Em to­das as vi­agens nasce pes­soal a bor­do. Às vezes sou eu próprio a as­si­stir, imag­ine o doutor. Os in­dí­ge­nas têm con­fi­ança. Mas este era um ca­so ar­revesa­do, e ain­da bem que o doutor es­ta­va. Não sei aonde é que es­ta gente quer ir parar, com tan­ta nin­ha­da. Ol­he, é pre­ciso é que to­dos fiquem bem. 

  E o capitão aju­da­va-​me a subir à ponte, car­rega­va-​me a male­ta, se­gu­ra­va a can­cela para eu pas­sar, e já de­pois, no ca­marote, ex­pen­dia largas ob­ser­vações so­bre aque­les mo­dos de vi­da e ou­via deleita­do as notí­cias que eu lhe ia dan­do do nos­so país na­tal. Adorme­cia de re­pente, de­pois de um «ora pois en­tão» sus­pi­ra­do.

  Um dia vi-​o muito ten­so, de mãos crispadas na bitácu­la, a ol­har o hor­izonte, so­brol­ho car­rega­do. O grego pi­lo­to mas­ca­va melan­col­ica­mente o que quer que fos­se e, de quan­do em quan­do, al­tea­va um dos om­bros, num tique que lhe não era ha­bit­ual, to­can­do as malague­tas com im­pul­sos br­us­cos. 

  Ao al­moço, os três ofi­ci­ais mantin­ham-​se si­len­ciosos, tratavam-​se ce­ri­mo­niosa­mente, in­ter­pun­ham grandes pausas en­tre as raras palavras. 

  Per­gun­tei ao capitão o que ia no ar. Ele re­spon­deu com um dis­cor­rer va­go, queixan­do-​se do ir­landês que, a seu ver, tin­ha mau feitio quan­do be­bia, não se fazia re­speitar pe­los dois cúlies que tra­bal­havam com ele, e deix­ava sem­pre a casa das máquinas cober­ta de uma ca­ma­da pe­ga­josa de óleo e poeira. Além dis­so, tin­ha mau perder ao jo­go con­fi­den­ci­ava-​me, en­tre baforadas vi­vas de gene­bra. 

  Os out­ros, en­tre­tan­to, es­bugal­havam os ol­hos, ten­tan­do adi­vin­har uma ou out­ra palavra da nos­sa palestra, e que­davam-​se muito graves, o grego aplainan­do vaga­mente com a fa­ca as ru­gas da toal­ha, o ir­land