ês as­so­bian­do para o la­do, en­quan­to fazia ro­dar dis­traida­mente um aba­cate mir­ra­do na mão.

  Perce­bi que o capitão, na sua per­len­ga, en­quan­to descas­ca­va a fru­ta com méto­do, es­col­hia as ex­pressões, ia bus­car re­gion­al­is­mos, ter­mos ar­revesa­dos, para evi­tar que os out­ros com­preen­dessem al­gu­ma coisa do que dizíamos. E re­ma­tou o aranzel, quan­do o cri­ado ín­dio, re­speitoso, trazia o chá, com um pro­fun­do: 

  -Ol­he, doutor, sabe? Is­to é pre­ciso é que to­dos fiquem bem ... 

  Mas al­gum tem­po de­pois sur­preen­di-​o soz­in­ho, de­bruça­do na amu­ra­da, a con­tem­plar as águas. De no­vo in­sisti. O que é que real­mente se pas­sa­va? 

  O co­man­dante riu-​se das min­has apreen­sões. Disse-​me que não havia tem­pes­tades [sama­tradas, co­mo ele lh­es chama­va] nes­ta al­tura do ano. Quan­to a in­vesti­das de pi­ratas, que me foram sug­eri­das pe­los enormes jun­cos, de tombadil­ho al­tea­do, que nos cruzavam, er­iça­dos de can­hões de bronze, o capitão garan­tiu-​me que de­pois do re­forço da fro­ta de Lah-​Shong os pi­ratas tin­ham de­sa­pare­ci­do daque­las águas. De resto, ob­ser­va­va, quem pode­ria es­tar in­ter­es­sa­do em abor­dar um fer­ry-​boat de­crépi­to cheio de em­igrantes mais po­bres que Job? Ora os pi­ratas que­ri­am-​se era para os ri­cos vi­ajantes en­tre Hong-​Kong e Macau, para os vis­itantes mil­ionários de Bali, ca­pazes de pro­por­cionarem carteiras rec­headas e res­gates pródi­gos. Ago­ra ali, naque­le pon­to, ná! E cus­pin­ha­va de­sprezi­va­mente para as on­das. 

  As­sim me deixou, sem mais ex­pli­cações, e foi re­unir-​se ao grego, na cab­ina do co­man­do. Mas o ner­vo­sis­mo con­tin­uou du­rante o resto do dia. O maquin­ista ges­tic­ulou du­rante to­do o jan­tar, en­tre­tendo uma com­pli­ca­da dis­cussão em chinês com o grego, que al­isa­va so­tur­na­mente o guardanapo, en­tre os re­mo­ques. O capitão fazia tam­bo­ri­lar os de­dos por so­bre a mesa, son­hador, o dól­man sua­do en­tre­aber­to so­bre o peito, até que deu por fin­da a dis­cussão com um rugi­do de im­paciên­cia e um mur­ro na mesa. 

  Nes­sa noite, porém, en­quan­to deita­do na min­ha de­scon­fortáv­el ca­ma de cam­pan­ha ten­ta­va de­cifrar o sân­scrito tosco de um manuscrito que me havia forneci­do o pro­fes­sor Telles Paula, res­idente em Lah-​Shong, com a aju­da de uma mul­ti­dão de di­cionários e livros de no­tas al­in­hados so­bre o lençol. ain­da ou­vi até tarde o palavrea­do áspero dos três home­ns.

  Es­tran­hamente, a bor­do ia o silên­cio. Du­rante to­do o serão não se ou­viu o fervil­har ha­bit­ual da mul­ti­dão, nem os gri­tos, nem os choros das cri­anças, nem as con­ver­sações dos vel­hos, nem as casquinadas das mul­heres, nem a al­gazarra dos home­ns. Na­da. O sipaio de turno passea­va tran­quil­amente na ponte. Ou­via-​lhe as bo­tas com­pas­sadas no tabua­do, por so­bre um con­vés dor­mente, tran­qui­lo. 

  De man­hã, acordei num re­pelão, so­bres­salta­do. Sen­ta­do na ca­ma, de coração aos saltos, ol­hei para cima, para a vi­gia. Um ol­ho enorme, de íris doura­da e ra­ia­da de fi­nos veios de sangue, espre­ita­va-​me pe­lo vidro. Pre­cip­itei-​me para fo­ra do mosquiteiro que ras­guei com a brusquidão. 

  O navio balouça­va forte­mente e lá fo­ra soa­va um grande clam­or uiv­ado co­mo se to­da a gente gri­tasse, à uma. Vesti-​me ata­bal­hoad­amente com os movi­men­tos di­fi­cul­ta­dos pe­los baldões do bar­co e pela in­qui­etação de ver que o tal ol­ho de­sco­mu­nal não me des­fi­ta­va, co­la­do à vi­gia. O ol­ho desli­zou e vi es­cor­rerem pe­lo vidro grossos fios de ca­be­lo louro, solto, e, de­pois, fugaz, o lóbu­lo de uma orel­ha gi­gan