­tesca.

  Na ponte con­cen­tra­va-​se to­da a trip­ulação, com ex­cepção dos home­ns das máquinas. Tin­ham as mãos fixas no pavesame e o ol­har fi­to ao longe. O capitão to­mou-​me pe­lo braço e, com uma sacu­didela se­ca, in­ti­mou-​me a que não me mexesse. 

  Por to­da a ex­ten­são do mar, à vante do navio para­do, es­padanan­do nas águas qui­etas e es­curas, passea­va-​se um deus, no seu car­ro. 

  Nesse mo­men­to deslo­ca­va-​se, lento, de­screven­do um grande ar­co na nos­sa frente, obra de cem braças afas­ta­do do navio. Es­ta­va em pé, con­duzin­do um car­ro doura­do, de que as ro­das, ra­iadas, lev­an­tavam cachões de água dum e doutro la­do, e que era tira­do por dois cav­al­os mar­in­hos que fazi­am on­dear gra­ciosa­mente as suas re­tor­ci­das cau­das de peixe. O cor­po do deus, nu, re­sp­lan­de­cia e os ol­hos bril­havam-​lhe de um ful­gor bran­co que por vezes se fazia ver­mel­ho e frio. Na mão livre alça­va um tri­dente, com ma­jes­tade. Os lon­gos ca­be­los e bar­bas louras flu­tu­avam à brisa. 

  Quan­do o car­ro do deus es­ta­cou na nos­sa frente e ali, para­do, se man­teve du­rante al­guns in­stantes, caiu um grande silên­cio, ex­pec­tante, por so­bre o navio. Mas lo­go o car­ro cresceu, num chis­par de chamas rubras, e veio con­tra o bar­co. O deus, de tri­dente bem lev­an­ta­do, avan­ta­jou-​se pela proa. O cor­po agi­gan­ta­do ex­ce­dia ago­ra a al­tura da cham­iné e, no meio de um ven­to zu­nidor e dos gri­tos ater­ra­dos da mul­ti­dão, atrav­es­sou o navio e foi parar do la­do da ré, já num taman­ho de homem. 

  In­stin­ti­va­mente, to­dos na ponte nos baixá­mos, à pas­sagem daque­le ven­daval lu­mi­noso. O capitão, de quépi tomba­do so­bre a nu­ca, prague­ja­va baix­in­ho, de­spe­jan­do o repertório des­bo­ca­do de to­dos os por­tos do mun­do. No meio das in­ter­mináveis im­pre­cações só con­segui dis­tin­guir: 

  -Eu bem adi­vin­ha­va, co'a bre­ca, bem cal­cula­va que is­to ia acon­te­cer ... 

  O ir­lân­des tin­ha-​se fi­ca­do de joel­hos e reza­va. O grego tossia baix­in­ho, mão per­to da bo­ca, ol­hos de sus­to. Os mar­in­heiros e sipaios in­dí­ge­nas espre­itavam aco­co­ra­dos a monte, num pas­mo. 

  O deus, en­tre­tan­to, guia­va o seu car­ro, ul­tra­pas­san­do-​nos pela al­heta de bom­bor­do. Deu várias voltas em re­dor do navio, lev­an­tan­do es­puma, sem­pre a fi­tar em nós os ol­hos re­sp­lan­de­centes de fria luz. Sen­sivel­mente, este movi­men­to foi-​se fazen­do ca­da vez mais rápi­do, até que se tornou num cor­ro­pio lu­mi­nes­cente, mal dis­cernív­el en­tre bor­botões de es­puma. Lenta­mente, o navio en­trou a rodopi­ar, primeiro de mansin­ho, de­pois num giro cres­cente que nos fez agar­rar às amuras e levan­tou um grande alar­ido de pa­vor lá para baixo. 

  De no­vo o deus se fi­cou, para­do, no meio do mar, os seus cav­al­os em movi­men­tos va­garosos de sus­ten­tação à tona das águas. O grego e o ir­lân­des, de vol­ta da ro­da do leme, con­seguiram com muito es­forço dom­inar o navio, endi­re­itan­do-​o ao ru­mo que vin­ha seguin­do. Por um in­stante, as máquinas re­boaram a aju­dar a manobra e o navio, a cus­to, voltou a imo­bi­lizar-​se. 

  Ago­ra de braços cruza­dos, tri­dente pou­sa­do ao la­do, no car­ro, o deus, de ol­hos ful­gu­rantes, pare­cia es­per­ar o que quer que fos­se. 

  -Bom, va­mos a is­to -resmungou o capitão, e fez um sinal ao ir­lân­des para que o acom­pan­has­se. Segui­dos por sipaios, de ar­ma en­gatil­ha­da, os dois home­ns abri­ram a can­cela e de­sce­ram da ponte, para o meio dos em­igrantes. Do con­vés vier­am ru­mores con­fu­sos, al­guns gri­tos. 

  In­ter­pelei o grego, que, meio de­pen­dura­do da ro­da do leme, en­col­heu 