Title: O Destino Viaja a Bordo
Author: Maria Ondina Braga
CreationDate: Wed Jul 22 14:40:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 25 14:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Des­ti­no Vi­aja a Bor­do

  Maria On­di­na Bra­ga

  A pub­li­cação de O Des­ti­no Vi­aja a Bor­do, ex­traí­do do livro O Homem da Il­ha e Out­ros Con­tos, foi gen­til­mente au­tor­iza­da por Maria On­di­na Bra­ga.

  © 1997, Maria On­di­na Bra­ga e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-97-9

  Lis­boa, Jul­ho de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  O DES­TI­NO VI­AJA

  A BOR­DO

  A chi­ne­sa com quem Ruth par­til­ha­va o ca­marote no Napoléon con­vert­era-​se ao cris­tian­is­mo havia dois anos. De meia-​idade, ros­to largo, ca­be­los amar­ra­dos na nu­ca, tin­ha o ar meio patéti­co meio in­fan­til das al­mas deslum­bradas de fé. 

  -A min­ha mãe era bud­ista, reza­va a Bu­da duas ho­ras por dia. Não teve co­mo eu a sorte...

  Con­ver­sas da noite, quan­do Ruth re­gres­sa­va do baile. A chi­ne­sa, que es­tivera a ler a In­tro­dução à Vi­da De­vota ou os Evan­gel­hos, acen­dia a lâm­pa­da mal a pressen­tia.

  -In­co­mo­da-​a? 

  -Não. Na­da. -Us­ava tou­ca de se­da-​bi­cho que far­fal­ha­va no trav­es­seiro. -Es­tou acos­tu­ma­da a dormir tarde. 

  -Por min­ha von­tade ain­da fi­ca­va no deck. O mar, uma mar­avil­ha, ao lu­ar, nem imag­ina! 

  A sen­ho­ra Wang per­gun­ta­va co­mo cor­rera o serão. O se­gun­do comis­sário, aque­le muito loiro, tam­bém apare­cera? Tão sim­páti­co! De­ra-​lhe uma vez pastil­has con­tra o en­joo. 

  E in­falivel­mente falavam de re­ligião. A chi­ne­sa pre­ocu­pa­va-​se com a ideia da vir­gin­dade. Dis­sera-​lhe um sac­er­dote que as vir­gens fi­cavam lo­go abaixo do trono do Al­tís­si­mo. E tin­ha tris­teza de não ser virgem. Se se con­vertesse em meni­na... 

  -Oh, Mis­tress Wang, o que im­por­ta é a pureza in­te­ri­or.

  Ruth subia a es­cad­in­ha do be­liche e a sen­ho­ra Wang so­er­guia-​se. 

  -Acha que sim? Fui casa­da, en­vi­uvei, e há dois anos -par­ava co­mo quem ol­ha para den­tro -en­treguei-​me a Cristo. -Mostra­va o anel de com­pro­meti­da. -Pertenço à As­so­ci­ação das Amadas de Je­sus. Mas, se fos­se ho­je, não me casa­va com homem nen­hum, não.

  -Que se­ria do mun­do se to­das as mul­heres pen­sassem co­mo a sen­ho­ra? -ria-​se Ruth. 

  A chi­ne­sa, sisu­da, co­mo se não percebesse, não ou­visse se­quer. A lou­cu­ra de Deus toman­do-​a to­da. Um Deus que se lhe de­parara já na cur­va dos anos, de cruz às costas, madeiro ao al­to, mãos e pés cha­ga­dos. Um herói. Um már­tir da re­mis­são da hu­manidade. 

  -Não, não me casa­va. O meu pai era católi­co. O meu pai deixou-​me a mel­hor das her­anças... 

  Arre­da­va os lençóis, deita­va as per­nas para fo­ra, ia re­bus­car na vi­gia. 

  -Apetece-​lhe lai-​chi? Anonas? 

  Pas­sa­va amavel­mente a fru­ta a Ruth de­pois de a descas­car. 

  O baloiço do bar­co trazia ago­ra à lem­brança da chi­ne­sa a man­hã em que con­ver­sara com o comis­sário loiro. No con­vés. Tão gen­til, e boa figu­ra, o comis­sário, de­bruça­do para ela a per­gun­tar-​lhe se pre­cisa­va de al­gu­ma coisa. Sen­tara-​se nu­ma cadeira per­to. A sen­ho­ra Wang quis­era saber a re­ligião dele. 

  -Min­ha sen­ho­ra, sou... Vai es­can­dalizar-​se? Sou ag­nós­ti­co. 

  Para Ruth o mes­mo baloiço rela­ciona­va-​se com os braços do en­gen­heiro alemão. Tin­ham dança­do jun­tos. Con­tíguo ao seu o ca­marote do alemão. En­costa­va a cabeça à parede. Quem sabe se não o ou­viria voltar-​se na ca­ma? 

  -Miss Ruth, co­mo pode ser um moço tão bom e ateu?

  -Fala do com