is­sário Re­nier? 

  -Sim. O mais loiro de to­dos. 

  -E quem lhe disse que ele era bom? Além dis­so, deve ter qual­quer crença. Ninguém vive de coração mor­to. 

  In­ter­ro­ga­va-​se so­bre a sua crença, Ruth: o amor? Mas que amor? Já a out­ra recita­va um provér­bio chinês que dizia pre­cisa­mente que ninguém vive de coração in­difer­ente. O be­liche do ca­marote ao la­do ran­gia -ou era ilusão sua? Bem po­dia es­tar lá àquela ho­ra. Hans tan­to lhe pedi­ra que en­trasse! 

  Ao aportarem a Saigão, Ruth saiu com o joal­heiro ceilonês que des­de o in­ício da vi­agem a con­vi­dara para com­er ar­roz com car­il, nos bar­cos. O joal­heiro fiz­era uma pr­elecção aos seus ir­mãos maometanos nu­ma mesqui­ta em lo­coa­ma. 

  -Nun­ca me sen­ti tão fe­liz na min­ha vi­da. Falei in­glês e disse o que talvez ain­da não tin­ha di­to a mim próprio. Não li o Al­corão. Foi tu­do espon­tâ­neo. Creio que se pode chamar a en­tre­ga da in­teligên­cia de um homem a Deus. 

  De ca­be­los lisos, cinzen­tos, tez baça, ol­hos del­icada­mente recor­ta­dos e es­fíngi­cos, ab­stin­ha-​se de be­bidas al­coóli­cas, je­jua­va no mês do Ra­madão, e goza­va da com­pan­hia de qua­tro mul­heres legí­ti­mas. 

  Ruth, cu­riosa: 

  -Não tem prefer­ên­cia por nen­hu­ma das suas mul­heres? 

  Que não, que er­am to­das be­las, e ca­da uma es­pe­cial: co­mo os per­fumes. Ar­quea­va as so­brancel­has. No en­tan­to, o Livro Sagra­do es­clare­cia: um homem não pode­ria tratar igual­mente to­das as suas mul­heres…evi­tasse to­davia deixar qual­quer de­las em sus­pen­so...Tu­do es­ta­va es­crito. 

  Veio o ar­roz a es­col­her. O ceilonês op­tou pe­lo mel­hor, graú­do e amare­lo, de primeira col­hei­ta. E a lagos­ta que o ser­vente ap­re­sen­tara vi­va, acaba­da de pescar, em con­vul­sões, era lança­da num caldeirão fumegante à ré. 

  Ruth vi­rou a cara. 

  -Não é a sua re­ligião que man­da poupar a vi­da aos an­imais? 

  -Es­tá a con­fundir is­lamis­mo com bud­is­mo. -Lava­va os de­dos nu­ma tigela de bam­bu. 

  Al­iás, lagos­ta era mais jóia do que bi­cho. Co­mo um coral. E aca­so iria re­pug­nar-​lhe vê-​lo com­er à mo­da da sua ter­ra? 

  De mo­do nen­hum. Já tin­ha vis­to os In­di­anos. Era com a mão es­quer­da, não era? 

  Nis­to, fi­tan­do-​a com aque­les seus grandes ol­hos som­brios e aguça­dos co­mo peix­es ne­gros, o ceilonês começou a dar-​lhe con­sel­hos: de­via casar-​se. Ar­risca­do uma mul­her no­va soz­in­ha. Em Ceilão, a lei ad­mi­tia qua­tro es­posas para que a nen­hu­ma mul­her fal­tasse um lar. Sabia que as france­sas que vin­ham no bar­co er­am con­tratadas pela Com­pan­hia para dis­traírem os home­ns? Ah, os país­es cristãos... 

  O cri­ado trouxe o ar­roz. Mr. Hamid, ago­ra cabis­baixo: 

  -Case-​se. Maomé, o Pro­fe­ta, o eleito, ama­va as suas mul­heres, não as mul­heres de ninguém. A graça, a del­icadeza das mul­heres aju­dam a con­duzir o homem a Deus. Du­rante o nono mês al­imen­to-​me de per­fumes nat­urais e da con­tem­plação das min­has qua­tro es­posas. -Con­tin­uan­do a lavar es­crupu­losa­mente as pon­tas dos de­dos, acen­tu­ava que o de­via en­ten­der à le­tra: sim, à noite, quan­do lhe era per­mi­ti­do com­er, o es­tô­ma­go, de tão fra­co, não tol­er­ava na­da sóli­do. Cos­tu­ma­va ema­gre­cer uns bons qui­los.

  Ela com von­tade de lhe per­gun­tar quem con­duzia as mul­heres a Deus. As mul­heres de «ol­har cas­to» do paraí­so is­lâmi­co, que servi­am fru­tas e be­bidas aos home­ns re­costa­dos em sofás. Uma vez Mr. Hamid lera-​lhe al­guns tex­tos do Al­corão: «Não tome is­to a rig­or. O Pro­fe­ta ex­prim­ia-​se por parábo­las.» Men­tal­mente, Ruth ia com­para­ndo as do