utri­nações da sua com­pan­heira de ca­marote com as do ceilonês. Ela: «Não se case. Não se case. Mel­hor ficar solteira.» Para Mrs. Wang, solteira e virgem er­am o mes­mo. Este a mandá-​la casar-​se. 

  En­tre­tan­to Mr. Hamid mod­elara uma bo­la de ar­roz co­mo uma lua. Que sig­nifi­ca­va «golpes-​de-​lua»? Ah, cren­dices... E o que dis­sera na mesqui­ta do Japão? Ele mer­gul­hou o ar­roz no car­il e a lua saiu tro­ca­da em sol. Não fo­ra dis­cur­so mas antes prece. De sol na mão de som­bra, om­bros rec­tos, ca­be­los aparta­dos ao meio, o ceilonês fazia pen­sar na es­tá­tua de um faraó. 

  -Case-​se! 

  Sor­riu per­plexa. 

  -Mas que ideia a sua! Quer que me case já? No bar­co? Du­rante a vi­agem? 

  Sim, du­rante a vi­agem, com Hans, o alemão. Que se prom­etessem, se deitassem jun­tos. -Tin­ha-​se cur­va­do tan­to para a frente que a cabeça dele por pouco to­ca­va a dela. O comis­sário Re­nier lev­ava to­das as noites con­si­go uma mul­her lá para a cab­ina. E o ime­di­ato. E out­ros. Não acabaria por ser uma dessas? 

  O ze­lo que o ceilonês pun­ha na rep­utação dela de­via-​se a quê? (Lume na bo­ca, o car­il. E a de­streza, a volúpia, quase, com que o chefe de mesa es­cor­cha­va a lagos­ta! A lagos­ta fi­nal­mente to­da bran­ca e ex­pos­ta co­mo um cor­po nu.) Ape­nas aos man­da­men­tos de Maomé? Uma mul­her de­via ter mari­do -in­sis­tia Mr. Hamid -de con­trário, nem era mul­her nem tão-​pouco ser hu­mano, e no Dia de Juí­zo enx­otavam-​na co­mo uma fale­na de mau agouro, e to­do o bem que tivesse feito não pe­sa­va nos pratos da bal­ança, os pratos fi­cavam leves, e ela ia habitar as pro­fun­das... 

  -Com o alemão. Porque ele é difer­ente dos out­ros. Porque tem boas in­tenções. 

  Um navio mís­ti­co aque­le: a san­ti­dade de Mrs. Wang, o fer­vor práti­co do ceilonês, os êx­tases do cana­di­ano a as­pi­rar os fu­mos da bo­quil­ha ao en­tarde­cer. E génios do mal co­mo Re­nier, Re­nier, Re­nier... E Hans? Onde caberia Hans? 

  O pin­tor cana­di­ano pesca­va to­das as man­hãs à popa. Es­guio, de ca­beleira cas­tan­ho-​clara a roçar-​lhe as es­pá­duas, ol­hos azuis, bar­ba em bi­co, chamavam-​lhe Je­sus Cristo. E Ruth, que às vezes con­ver­sa­va com ele (o cana­di­ano vivera três anos com os Es­quimós, en­si­nara pin­tu­ra no Ti­bete, vis­itara o Dalai-​Lama em Kat­man­du), es­per­ava vê-​lo um be­lo dia aban­donar o bar­co e cam­in­har so­bre as águas.

  Após o jan­tar é que Re­nier mostra­va quem era. Ao lon­go do dia, um gen­tle­man e o ído­lo das sen­ho­ras. Mrs. Wang, que o vis­ita­va pe­lo meio-​dia com o pre­tex­to de saber a emen­ta do al­moço, prom­etera-​lhe chá de Tai­wan, o que se col­hia antes das chu­vas, de fol­has largas, com mis­tu­ra de flo­res. E vis­to ele lhe con­fes­sar o seu ar­reiga­do ateís­mo, prin­ci­pi­ou a metê-​lo nas orações. À noite, porém, o comis­sário deix­ava cair a más­cara. Sabi­am-​no mul­heres no­vas com quem ele dança­va e que con­vi­da­va para um pas­seio pe­lo con­vés. Sabi­am-​no vel­has co­mo a amer­icana, a pro­tec­to­ra do pin­tor cana­di­ano (as más-​lín­guas badalavam que amante), ou a ital­iana, ex-​can­to­ra em Tóquio, que se sara­cotea­va de tan­ga de fol­has de taba­co à mo­da do Havai.

  Ruth in­tri­ga­da: se­ria o oiro dos ca­be­los de Re­nier ou o plaqué do seu hu­mor que fasci­na­va as mul­heres? A própria sen­ho­ra Wang, tão piedosa e tão hon­es­ta, an­da­va de­vota­da mente en­am­ora­da dele. 

  -Deve ser solteiro, Miss Ruth... Eu di­go-​lhe que não se case, mas se tem vo­cação…

  Ruth im­pa­cien­ta­va-​se. O comis­sário, es­tá vis­to, es­con­dia no ca­marote a aliança do casa­men­to e o re­tra­to da mul­her e dos fil­hos: 