«Ele não ê as­sim bom co­mo a sen­ho­ra jul­ga. Por mim de­testo-​o.» 

  Co­mo sem­pre que a con­ver­sa lhe aprazia, a sen­ho­ra Wang, sem ser bis­bil­hoteira, sen­ta­va-​se na ca­ma cheia de cu­riosi­dade: diz is­so? Comi­go tem si­do tão aten­cioso…»

  No be­liche de cima Ruth cer­ra­va as pálpe­bras. Co­mo pud­era su­por­tar a mi­ra­da fixa do joal­heiro? Aque­le es­crutínio? Aque­la in­sis­tente e ma­li­ciosa refer­ên­cia ao seu casa­men­to com Hans? E porque cor­re­spon­dia às atenções do alemão? De­baixo, a sen­ho­ra Wang in­sis­tia: «Tem al­gu­ma queixa dele?» 

  Queixa pro­pri­amente... Mas não é que ele pe­dia to­das as noites à ital­iana que se fan­tasi­asse à mo­da do Havai e de­pois es­carne­cia, à so­ca­pa, das suas coxas en­rugadas? A out­ra a de­sculpá-​lo: sem propósi­tos a ital­iana... Hans vi­ra­va-​se no be­liche do out­ro la­do da parede: as pupi­las claras, o ar al­ti­vo e se­cre­to. Quem era Hans? Por vezes son­ha­va que se deita­va com ele. Nem era bem son­ho, ape­nas um tor­por. Al­gas es­cor­re­ga­dias os seus mem­bros. A bo­ca, uma espon­ja. As mãos, es­tre­las-​do-​mar. Havia, con­tu­do, um golfin­ho de per­me­io. O pin­tor cana­di­ano ati­ra­va a lin­ha. Era Nos­so Sen­hor, o pin­tor -ia re­alizar-​se um mi­la­gre. Mrs. Wang tomban­do de joel­hos. Mas já o golfin­ho gan­ha­va mon­stru­osas patas ver­mel­has de lagos­ta. E o joal­heiro ceilonês de ol­hos atrav­es­sa­dos de egíp­cio, o ceilonês, imóv­el, a ob­ser­var -a jul­gá-​la? O seu me­do das gar­ras do crustáceo! O seu me­do do ceilonês! E Hans (era Hans?), com ca­be­los de lin­ho de Re­nier, a rir-​se cru­el­mente. Ar­repi­ante o riso. Pi­or que tu­do o riso. Acor­da­va afli­ta. «Não es­tá bem?» Mrs. Wang pade­cia de in­só­nias. «As­pire o pa-​fa-​iao.» O frasquin­ho de líqui­do verde. A madru­ga­da azul na vi­gia.

  -Fale, fale, Mis­tress Wang. Es­tou as­sus­ta­da. Um pe­sade­lo. Con­te-​me coisas da sua vi­da. 

  E lá vin­ha a mãe que era bud­ista. O pai, es­pan­hol, não o chegara a con­hecer. Sabe-​se lá se não fo­ra a al­ma do pai que a levara a Cristo? As al­mas dos an­tepas­sa­dos velavam pela família. Is­so em to­dos os cre­dos. No nir­vana, no con­fu­cionis­mo, no tao­is­mo. Ex­per­imen­ta­ra ca­da uma dessas re­ligiões antes de en­trar na Igre­ja Católi­ca. A lib­er­tação do nir­vana... Ela ja­mais sen­ti­ra tal lib­er­tação. Con­fú­cio acha­va-​o -co­mo diria? -muito mun­dano. Ruth an­in­ha­va-​se-​lhe aos pés da ca­ma: «Va­mos ho­je pedir o pe­queno-​al­moço no quar­to?» Um re­ga­lo tomar o pe­queno-​al­moço na ca­ma, es­pal­har man­teiga nos brioches ain­da quentes. Mas era muito ce­do. «A Mrs. Wang não' tem dúvi­das, ago­ra?» Não. Nun­ca mais tivera dúvi­das. Es­ta­va na ver­dade. Tão cer­to co­mo o seu pai ter ex­is­ti­do. Porque não dizia «a mãe»? Sem­pre o pai, só o pai, um pai que nem se­quer con­hecera. Chi­ne­sa an­ti­qua­da, Mrs. Wang, cri­ada no con­ceito do desval­or da mul­her. Além dis­so, a mãe não era cristã. O pai subia ao quar­tin­ho do sótão: «Bap­ti­za-​me es­sa meni­na!» Pousa­va duas moedas de pra­ta ao la­do do sabão no lavatório de la­ta. A mãe orgul­hosa quan­do fala­va dele: «Muito in­teligente. Apren­deu o chinês num ai» e dig­no. Nun­ca a vi­ra senão em be­bé, não a per­fil­hara, mas doara-​lhe to­dos os bens, ain­da que pouco abona­dos. «E a sua mãe bap­ti­zou-​a?» «Não. Bud­ista a min­ha mãe, lev­ava-​me ao pagode, bo­los de so­ja num pra­to, a cabeça no chão. Uma ig­no­rante, coita­da.» En­tão o tu­tor tirou-​lhe a fil­ha pe­los onze anos e in­ternou-​a num colé­gio. E a pe­que­na a prom­eter a si própria que havia de procu­rar o ver­dadeiro