 Deus. Sem con­tu­do se fi­ar no en­si­no das mes­tras protes­tantes. Es­peran­do. Lendo. Med­itan­do. Mes­mo de­pois de casa­da. Uma ausên­cia. Uma fal­ta. Até que já viú­va…So­er­guia-​se, acalo­ra­da, a tou­ca às três pan­cadas, o co­lar­in­ho do pi­ja­ma desabotoa­do. Evola­va-​se das suas roupas um aro­ma agri­doce. Ruth assemel­ha­va-​a à deusa da In­ocên­cia. Mas onde havia tal deusa? 

  Hans às vezes tam­bém lhe pare­cia in­ocente, em par­tic­ular na noite em que lhe pro­pusera casa­men­to: «Queres ter lo­go fil­hos ou es­paçar a lua-​de-​mel por dois ou três anos?» Sabia lá! Que per­gun­ta…Men­tiu: «Vou pen­sar.» E não pen­sa­va, não que­ria, não ati­na­va em pen­sar. Mrs. Wang, uma vi­da in­teira à por­fia do Di­vi­no. «A sen­ho­ra gosta­va do seu mari­do?» De­scon­ver­san­do, a chi­ne­sa prop­un­ha que des­cansassem um pouco antes do pe­queno-​al­moço. Já deita­da, Ruth com saudades de Hans. Se a com­pan­heira não es­tivesse acor­da­da... O bran­do marul­har das águas e as falas (ou rezas) da sen­ho­ra Wang aju­davam ao bem. Dar-​se uma mul­her a um homem e um homem a uma mul­her, tro­carem alianças (aquan­do do casa­men­to da pri­ma Adeli­na, ia nos seus seis anos, se­gu­rara a ban­de­ja das alianças, deixara cair a ban­de­ja das alianças), diz­erem o sim, era cam­in­ho rec­to. Sua mãe tin­ha tril­ha­do esse cam­in­ho. E a mãe da sua mãe. To­das as mul­heres de seu sangue. Porque se aven­tu­ra­va ela por atal­hos, car­reiros de monte, be­cos sem saí­da? A madru­ga­da, no mar, mais pre­matu­ra e melancóli­ca. Na prateleira, os fras­cos de remé­dio, os bál­samos, o pa-​fa-​iao verde de er­vas. Mrs. Wang resson­ava baix­in­ho, co­mo um gato. De ol­hos crava­dos nas tábuas do tec­to que flu­tu­avam, es­tre­it­eci­am, se alon­gavam, Ruth a faz­er a diligên­cia por se aco­modar àquele tem­po. No aves­so da parede Hans dormia a sono solto, po­dia dormir porque era ver­dadeiro. E se se dis­pusesse a ser ver­dadeira com ele, con­si­go mes­ma? E o que era uma pes­soa ser ver­dadeira? Amar? 

  Quan­do nes­sa man­hã -o Napoléon de­via es­calar Sin­ga­pu­ra de tarde –, Ruth apare­ceu no deck de roupão, muito ce­do, os maru­jos in­ter­romper­am a baldeação e ol­haram-​na com atre­vi­men­to. Vi­ajara já em vários bar­cos, mas nen­hum com home­ns as­sim descara­dos. Ao aprox­imar-​se um por­to de es­cala, qual­quer em­pre­ga­do de mesa se afoita­va a con­vi­dar uma pas­sageira de turís­ti­ca para sair na sua com­pan­hia. E a Mrs. Wang tam­bém pode ir? Ora! Mal­cri­adote, o francês. Na ter­ceira classe, en­tão, con­sta­va que era uma sú­cia: os aju­dantes de co­zin­ha meti­am-​se no baile, se não iam, a meio da noite, bater à por­ta dos ca­marotes das mul­heres. Uma in­di­ana, muito boni­ta, queixara-​se à gerên­cia. Que con­traste o navio de mer­cado­rias japonês em que Ruth em­bar­cara da Ín­dia à Tailân­dia, três anos antes! Mesuras, mãos pe­que­nas e pál­idas, ol­hos re­cata­dos, um recol­hi­men­to, um seg­re­do. Mais mi­tos que home­ns os trip­ulantes do Yuzuri­ha, a ár­vore cu­jas fol­has servi­am de pratos para os acepipes do Ano No­vo, que em­bran­que­ci­am os dentes. Tu­do a com­bi­nar com o sus­sur­ro das on­das, os túneis es­curos e fres­cos do vel­ho car­gueiro, e com ela própria, a sua nos­tal­gia do sono. Estes, no en­tan­to, rosa­dos, grandes, pe­lu­dos, per­ten­ci­am às ho­ras sôfre­gas, vi­olen­tas. E as­sim Re­nier. Co­mo a Penépole da len­da, Re­nier fi­ava de dia a teia que des­fazia de noite. Ela por pouco en­trara nesse des­faz­er. O fatídi­co ceilonês: «Não acabará por ser uma dessas?» 

  Aceitara Re­nier de­lib­er­ada­mente e sem ilusões. Se lhe per­gun­tassem porquê, en­col­he­ria os om­bros. A bele