za más­cu­la de Re­nier, o ofus­cante e fal­so bril­ho do seu es­píri­to, o seu de­saforo pe­savam menos do que o desabri­go dela. Um in­sul­to para Re­nier, ex­igente e pre­sum­ido. E uma de­sistên­cia, da sua parte, co­mo se já es­tivesse mor­ta. Valera-​lhe a sen­ho­ra Wang nos ar­rou­bos da sua no­va fé. Valera-​lhe a paixão de Hans.

  Re­nier zan­gou-​se, acu­sou-​a de traição. Re­nier sem­pre pron­to a jul­gar as mul­heres, não fos­sem elas jul­gá-​lo a ele. De­pois, se acon­te­cia em­par­el­harem nas voltas do baile, era o pre­sente por de mais frívo­lo e efémero para que chegasse a ser. E, ca­so o comis­sário teimasse num pas­seio até à ponte, com o rodeio de lhe mostrar as con­ste­lações umas ao la­do das out­ras co­mo em ma­pa de es­co­la, per­dia-​o de to­do. 

  -Sabe quem gos­ta de si? Adi­vin­he. A sen­ho­ra Wang. Acha-​o muito sim­páti­co, muito boa pes­soa. 

  -Que sen­ho­ra Wang? Não me di­ga, a vel­ha chi­na! 

  Não tão vel­ha. Out­ras muito mais vel­has. Re­nier a per­gun­tar se era a casa­da com Cristo. A amer­icana? Mas que con­fusão! Refe­ria-​me mes­mo a Cristo, não ao hip­pie cana­di­ano. A que us­ava o anel do Amor Di­vi­no. Cale-​se. É uma san­ta. Que san­ta? Sor­ria de es­cárnio. Saberia ele que era um di­abo? Gar­gal­ha­va, se lhe dissesse. Mas que é is­so de di­abo? Per­gunte à Mrs. Wang, ao Mr. Hamid. O son­ho, o pe­sade­lo: os lábios de Hans sem poderem unir-​se aos dela por causa do golfin­ho. «Que frio! Va­mos para a sala.» De­tes­ta­va-​o. Oh, co­mo o de­tes­ta­va! «Va­mos para a sala.» Hans já se havia re­ti­ra­do. Recol­hia à cab­ina, ex­ci­ta­da. Fu­ma­va cigar­ro atrás de cigar­ro. A sen­ho­ra Wang lia al­to fras­es da Bíblia: «Je­sus disse: aban­dona tu­do e segue-​me.» 

  Nes­sa man­hã Ruth a com­parar men­tal­mente os Oci­den­tais com os Ori­en­tais e a ol­har a nebli­na ao longe anun­ci­ado­ra de ter­ra, e uma mão bran­da a pousar-​lhe no braço. O maometano, de túni­ca de se­da pre­ta e pés trigueiros e os­su­dos, co­mo raízes, nas sandálias de fi­bra de palmeira. Vin­ha do ban­ho tur­co e masti­ga­va al­go aromáti­co e col­ori­do. «Quer?» Mel­hor do que a fol­ha de bétele para pu­rificar o hál­ito e es­tim­ular o apetite. Ou­via-​se o jac­to das mangueiras no tabua­do do con­vés in­fe­ri­or e via-​se o calor crescer em nu­vem trem­ulante en­tre o céu e o mar.

  -Ten­ho umas jóias que gosta­va de lhe mostrar -disse o Mr. Hamid per­scru­tan­do o hor­izonte. -Lev­ei-​as ao Japão para as ex­por. Há sécu­los que há joal­heiros na min­ha família. 

  O ca­marote do ceilonês seguia-​se ao de Hans e era tam­bém in­di­vid­ual. Ele foi a um can­to, trouxe uma mesa portátil, pux­ou um ban­co para ela. Re­mex­ia na mala, abria por fim um cofre de madeira com cadea­do de pra­ta. 

  -Na sua re­ligião os bens ma­te­ri­ais não es­tor­vam aos bens es­pir­itu­ais? 

  Ruth cus­ta­va-​lhe a sep­arar o ceilonês do Al­corão e in­con­scien­te­mente procu­ra­va de­sco­brir-​lhe cul­pas, ou de propósi­to, para lhe abalar a retóri­ca. 

  Mr. Hamid, a tirar um ru­bi gi­gan­tesco dum saquin­ho de se­da, sacud­iu a cabeça, meio es­pan­ta­do, meio ir­ri­ta­do, mur­mu­ran­do qual­quer coisa co­mo: o con­hec­imen­to de Deus era o úni­co bem neste mun­do e a oração que pro­nun­cia­ra em lo­coa­ma valia por to­das as riquezas da sua joal­haria... Palavrea­do de re­li­gioso tradi­cional? Mrs. Wang, a católi­ca con­ver­ti­da, lábia co­mo o muçul­mano não tin­ha, es­ta­va era mar­avil­ha­da. «En­tão?» Os de­dos do joal­heiro deslizavam pe­lo meio das pe­dras pre­ciosas com a mes­ma de­scuida­da elegân­cia com que, à mesa do restau­rante, havi­am mane­ja­do os ba­gos do ar­roz. Safi­ras. Em