 Ceilão o chão da­va safi­ras, sabia? E es­mer­al­das. O ru­bi, que ia da mão para os lábios de Mr. Hamid, ao mo­do das cos­tureiras com os alfinetes, era uma bol­ha de sangue na fen­da es­cu­ra da bo­ca. As opalas trans­par­entes e de fo­go, as­sim co­mo os ol­hos-​de-​ti­gre, ele pun­ha-​os de parte, co­mo se se tratasse de ar­roz de se­gun­da apan­ha. E não re­cea­va que lhe roubassem aque­le tesouro? Ora, guar­da­va-​o no cofre do bar­co; fo­ra buscá-​lo na véspera para o mostrar a ela e a Hans. Mas não vi­ra Hans no salão... «Não. Re­tirou-​se ce­do.» E acome­ter­am-​na saudades de Hans. Um sen­ti­men­to que se lhe fig­urou fi­no e no­bre co­mo as jóias do Mr. Hamid. In­cli­nou-​se para ele. Seg­re­dou-​lhe: «Parece que eu e Hans nos va­mos casar.» 

  O ros­to do ceilonês abriu-​se. A mão deixou tombar o ru­bi -a mão ou os beiços? A bo­ca do sen­hor Hamid era to­da ver­mel­ha. Muitos parabéns! Muitos parabéns! E que­ria ofer­ecer-​lhe uma lem­brança: na­da de muito val­or: uma pe­dra-​de-​lua: o tal­is­mã da fe­li­ci­dade. 


  À saí­da do quar­to do ceilonês, Ruth en­con­trou-​se com a sen­ho­ra Wang, que se di­ri­gia à sala de jan­tar, e foi com ela. Sen­taram-​se la­do a la­do. Vier­am carnes frias. «Não se es­queça de que ho­je é sex­ta-​feira.» Por es­quec­imen­to, con­tu­do, ninguém peca­va. Nem ela com­preen­dia muito bem peca­dos dess­es. Uma questão de obe­diên­cia. Faz­er mal de propósi­to, odi­ar, men­tir, is­so, sim, era pecar... Ruth es­pal­ha­va com­pota na tor­ra­da. 

  -E men­tir por não po­der­mos já faz­er out­ra coisa? 

  -Co­mo? 

  -Por ex­em­plo, quan­do ju­ramos amor a uma pes­soa por an­dar­mos com pe­na de não amar ninguém. 

  A chi­ne­sa en­rugou a tes­ta. 

  -Ora, is­so acon­tece com os home­ns, não com as mul­heres. O pa­pel da mul­her, no amor, não é de chama­da mas de re­spos­ta. Ou estarei fo­ra de mo­da? -O ol­har er­ra­va-​lhe pela sala. -O meu mari­do dizia que uma mul­her nun­ca tem opor­tu­nidade de men­tir porque o que menos in­ter­es­sa aos home­ns é a ver­dade dela. Aten­ta­va na col­her que se­gu­ra­va, tré­mu­la: Meu Deus, quan­tas go­tas deit­ei? Bem, os home­ns são uns orgul­hosos. O mun­do a seus pés…E o meu mari­do era dos anti­gos, com es­posa e con­cu­bi­nas. 

  A primeira vez que a sen­ho­ra Wang alu­dia à vi­da de casa­da. 

  -Creio que deitou oito. Ou­vi con­tar até pa­to A sen­ho­ra ama­va mes­mo o seu mari­do? 

  -Kau, sap, sap-​iâ e a chi­ne­sa en­goliu o remé­dio com uma care­ta. Para o coração. Não pre­gara ol­hos to­da a noite. Sorveu um gole de chá. Fir­mou-​se em Ruth: -Amei-​o tan­to que chego a du­vi­dar se poderei ser boa cristã al­gum dia. 

  Ruth sossegou-​a. Is­so não im­por­ta­va. Havia até ca­sos de san­tas... 

  -Mas ele não acred­ita­va em nen­hum Deus! Troça­va de to­das as re­ligiões! -Sus­pi­ra­va Uma na­tureza de­monía­ca... -Apoia­va o queixo na mão. -Ape­sar de tu­do amei-​o. Amei-​o, Miss Ruth, com to­das as ve­ras da min­ha al­ma. 

  Um navio ao mes­mo tem­po sagra­do e maldito. Co­mo as pes­soas que o habitavam. Dessem uma vol­ta pe­lo con­vés, à noit­in­ha: o moço pin­tor in­sta­la­do en­tre ca­bos e bidões de al­ca­trão, no Sé­ti­mo Céu. Da cab­ina de Mr. Hamid ecos dos aiates dos suras. Cal­ad­in­ha co­mo um ra­to, a sen­ho­ra Wang, no seu acan­hado be­liche, a med­itar nos mis­térios da Paixão. E havia de­cer­to quem rezasse o terço -porque não? -e quem lesse ro­mances, e quem amasse, quem dis­cutisse, quem chorasse. E os vel­hos com sus­to de mor­rer e ser lança­dos ao mar, e doentes, e afli­tos. Um navio co­mo um grande ed­ifí­cio com vários aparta­men­tos, caves, tor­res, desvãos e fal­sos, com gente de to­da