s as class­es, to­das as raças, to­das as crenças, que se cruzavam nos lances das es­cadas, se re­uni­am nas salas co­muns, se de­scon­heci­am mu­tu­amente. Al­ta noite, pran­tos: a moça core­ana, que ocu­pa­va o ca­marote das co­cotes france­sas, apo­da­da de ladra: fal­ta­va din­heiro: e ela sem se faz­er en­ten­der, a ne­gar por gestos, e aos gri­tos. Al­guém nu­ma maca di­re­ito à en­fer­maria. E o lu­lu do em­baix­ador de Es­pan­ha, a car­go de uma freira doroteia (o úni­co an­imal ad­mi­ti­do no in­te­ri­or do bar­co), a latir, a ganir, a uiv­ar ho­ras seguidas. E os que mor­ri­am mes­mo. E suicí­dios -dizia Mr. Hamid: -um grumete muito jovem atraí­do pe­lo pego das águas em noite de lua cheia: por causa de uma car­ta que re­ce­bera nesse dia? Por in­justiças dos su­pe­ri­ores? Malé­fi­ca, por um la­do, a lua cheia: alum­bra­va as in­só­nias transtor­nan­do o juí­zo, in­flu­en­ci­ava nos aba­los de ter­ra e no crime. Propí­cia, por out­ro la­do, a lua cheia: na ger­mi­nação das se­mentes, na atracção sex­ual, na fer­men­tação das fol­has do chá, no at­es­tar do vin­ho. E nasci­men­tos adi­anta­dos -tor­na­va Mr. Hamid –: meni­nos de sete meses que cabi­am na con­cha du­ma mão. E casa­men­tos. As­si­sti­ra já a dois, nes­sa de­mor­ada car­reira do Japão. Os casa­men­tos cel­ebravam-​se ao pôr do Sol, com ban­quete e baile. Se os noivos er­am de se­gun­da ou ter­ceira classe, o co­man­dante brin­da­va-​os com uma suite de primeira, para as núp­cias. Tu­do is­so Mr. Hamid tin­ha já vis­to acon­te­cer ir­re­me­di­avel­mente, co­mo o Ol­ho de Alá a que na­da es­capa­va. Tu­do is­so e muito mais. Talvez até ocul­tas, inar­ráveis ocor­rên­cias. Talvez -quem sabe? -mi­la­gres. Em­preen­dia es­sa vi­agem ano sim, ano não.

  Naque­la noite Ruth con­tou à sen­ho­ra Wang do seu prome­ti­men­to a Hans. A chi­ne­sa con­hecia-​o pe­lo «alemão». «E gos­ta dele, gos­ta? En­fim, casa­men­to e mor­tal­ha...» Ela, por ex­em­plo, ama­ra o seu di­abóli­co homem por quem es­tivera quase a perder-​se. En­simes­ma­da, a sen­ho­ra Wang. De que cor era a pe­dra-​de-​lua? Pois bem, tin­ha tam­bém de lhe ofer­ecer uma pren­da. Ba­tia as pal­mas co­mo uma cri­ança. Um mês a fio ali par­ceiras, ami­gas já, quase co­mo se de família. Ah, havia de re­volver as malas. Anu­vi­ados os ol­hin­hos de con­ta: jóias não us­ava por mod­és­tia cristã, nem bro­ca­dos, nem quais­quer tafu­lar­ias. Ilu­mi­na­dos os ol­hin­hos de con­ta: mas tin­ha um rosário de jade com bênção pa­pal!

  Ruth ain­da ho­je per­gun­ta a si própria quem primeiro teria da­do a notí­cia a Hans. O Napoléon atra­cou a Sin­ga­pu­ra pe­lo princí­pio da tarde. No cais atra­van­ca­do, meni­nos malaios a vender chapéus e leques de pe­nas gar­ri­das. As ruas chi­ne­sas de Sin­ga­pu­ra, um poder de gente, os berros dos car­regadores a cor­ricar, a cor­ricar, de vara de bam­bu aos om­bros. Ia ela, ia Hans, e a Mrs. Wang e o Mr. Hamid. «Porque não viemos só nós os dois?» O restau­rante flu­vial. «Co­bra? Querem co­bra?». Não. Co­bra, no Verão, um pra­to in­di­gesto. Des­ta vez o sen­hor Hamid co­mia o ar­roz com fachis. Per­gun­ta­va disc­re­ta­mente se seguiam jun­tos para a Ale­man­ha. Não sabi­am, não tin­ham com­bi­na­do. Ruth a lem­brar-​se dos que se casavam no bar­co, sem chão de­baixo dos pés: para não pen­sarem no que viria de­pois e se abal­ançarem a tu­do? Acha­va que gente dessa em ter­ra nun­ca se casaria. Hans disse que ten­ciona­va pas­sar dois meses de férias em Coló­nia, a sua cidade na­tal, e ao fim re­gres­sar à Aus­trália onde o es­per­ava o tra­bal­ho. As ol­hade­las de­scon­fi­adas ou in­ter­rog­ati­vas que Hans lhe deita­va. Ela a situ­ar-​se no seu país, saudosa dos seu