s. Mr. Hamid pousou os fachis e pôs à dis­posição a sua casa em Colom­bo: es­cusavam de ir dormir ao bar­co, tin­ha lá bons aposen­tos. Con­vite ex­ten­si­vo a Mrs. Wang. Ruth a imag­inar as qua­tro es­posas do joal­heiro: qual sen­taria ele à sua di­re­ita?

  À noite a Mrs. Wang mona, caí­da. Doía-​lhe al­gu­ma coisa? Hans tam­bém não saiu. Foram os dois, co­mo de cos­tume, para o bar, tomar um cock­tail d'amour. Ruth sen­tia-​se vaga­mente en­ver­gonha­da: afi­nal não fo­ra ela quem lev­an­tara a es­túp­ida ideia? Palavras fo­ra da bo­ca, ain­da que sem qual­quer in­ten­to, ou por is­so mes­mo, pe­dras fo­ra da mão. E só em pen­sar que po­dia ter magoa­do Hans ou quem quer que fos­se…O muçul­mano. O muçul­mano tivera re­spon­sabil­idade: ele, por as­sim diz­er, quem lhe ar­ran­cara as palavras, as tais perigosas co­mo pe­dras. E quem avis­ara o alemão? Avis­ara? De­sav­is­ara? Es­tavam cal­ados, e mais tarde ca­da um falou do seu fu­turo in­cer­to: mais in­cer­to para ela do que para ele, e para ele mais monótono. Na Aus­trália vivia no ma­to, mel­hor, nu­ma flo­res­ta de eu­calip­tos gi­gan­tescos, to­dos bran­cos, fan­tas­mas ao lu­ar... Com­preen­dia que não se en­tu­si­as­masse. Nen­hu­ma mul­her... Ela pas­ma­da e con­tente. «Pos­so ir um dia vis­itá-​lo? Po­dia. Até a aju­da­va na vi­agem. Muito be­lo aqui­lo por lá... Sa­bo­re­ava a be­bi­da. O bar­man tin­ha-​se es­mer­ado no cock­tail d'amour, não tin­ha? Os di­ver­sos pisos, os quar­tos e o tombadil­ho do Napoléon mais ou menos de­ser­tos. À la­ia de músi­ca de fun­do, o bur­bur­in­ho do por­to e da cidade. Iam deitar-​se ce­do. Que­ria que a chamasse para um pas­seio de man­hã? Se a Mrs. Wang mel­ho­rasse... Já no corre­dor, Hans apru­mou um de­do nos lábios: «Es­cute. Ele a rezar.» As palavras ressoavam, solenes. Porque se­ria que o muçul­mano se afer­vo­ra­va tan­to nas orações? Pe­lo fac­to de o navio se en­con­trar para­do ou porque es­ta­va a rec­on­cil­iar-​se com Deus? Rec­on­cil­iar-​se? En­tão ele pecara? Por mo­men­tos, Ruth e Hans en­tre­ol­haram-​se. De­pois, de­spedi­ram-​se. De­spedi­ram-​se sem saberem na­da um do out­ro, nem ago­ra nem mais tarde, co­mo suce­dia com com­pan­heiros de vi­agem com metas difer­entes. So­prou um ven­to. Bat­er­am por­tas. Subiu das águas um cheiro verde de limos. A voz do muçul­mano num crescen­do, no bar­co vazio. Que ao fim e ao cabo, para o muçul­mano, o mun­do era um livro aber­to de­baixo dos seus ol­hos, um Corão onde a sina das criat­uras es­ta­va fa­tal­mente es­cri­ta. Ali, naque­las águas, na car­reira do Japão, onde tin­ha já vis­to tan­to (ano sim, ano não), dir-​se-​ia que era ele quem pun­ha e dis­pun­ha. Ele o de­ten­tor, o dono do des­ti­no. 

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