Title: O Galeão Enxobregas
Author: Francisco Maria Bordalo
CreationDate: Wed Jul 29 12:17:00 BST 2009
ModificationDate: Mon Feb 26 18:40:00 GMT 1973
Genre: 
Description: 
  O Galeão Enxo­bre­gas

  Fran­cis­co Maria Bor­da­lo

  A pub­li­cação de O Galeão Enxo­bre­gas, ex­traí­do do livro Naufrá­gios, Vi­agens, Fan­tasias & Batal­has (Se­lecção, co­or­de­nação, pre­fá­cio. leitu­ra de tex­to e no­tas de João Pal­ma-​Fer­reira), foi gen­til­mente au­tor­iza­da por Maria Fil­ipe Pal­ma-​Fer­reira e Im­pren­sa Na­cional-​Casa da Moe­da.

  © 1997, Maria Fil­ipe Pal­ma-​Fer­reira e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-82-0

  Lis­boa, Maio de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  O GALEÃO

  ENXO­BRE­GAS

  I. Tor­men­ta e Re­vol­ta 

  Em uma quin­ta-​feira da As­cen­são, que se con­tavam treze dias do mês de Maio do ano do nasci­men­to de nos­so Sen­hor Je­sus Cristo de 1649, re­uniu-​se muito po­vo na pra­ia de Belém para ver de­sa­fer­rar do Tejo o galeão Enxo­bre­gas, uma das maiores naus do seu tem­po, que por efeito de grossas avarias não seguira para a Ín­dia com o mais da fro­ta d'esse ano, em 15 de Abril; mas que por ser veleiro e se­guro es­per­avam chegasse a Goa adi­ante daque­les que lhe tomaram a di­anteira. A referi­da ar­ma­da com­pun­ha-​se ape­nas de dois galeões; já não er­am aque­las grandes fro­tas do tem­po de D. João III! Por capitâ­nia da vi­agem ia a nau S. Lourenço, con­struí­da na ribeira de Goa, a qual se perdeu lo­go a 3 de Setem­bro nos baixos de Mox­in­cale, co­mo mui las­ti­mosa­mente con­ta o je­suí­ta An­tónio Fran­cis­co Cardim, que era seu capelão; e por almi­rante um galeão no­vo, de­nom­ina­do Nos­sa Sen­ho­ra do Bom Suces­so do Po­vo, que tam­bém se perdeu, cin­co dias de­pois, per­to das il­has de An­goxa, no quar­to da modor­ra, com ven­to em popa, amar­ras telin­gadas e vi­gias na so­bre­ce­vadeira, co­mo igual­mente con­ta o rev­eren­do padre da Com­pan­hia de Je­sus. Com ven­to fres­co e de feição, ao re­pon­tar da maré, de­sceu airoso o Tejo o nos­so galeão Enxo­bre­gas, levan­do por seu capitão a Bastião de Morais, o dos ócu­los, acan­hado da vista mas de­sem­baraça­do do pul­so. Por pi­lo­to ia Pêro Doura­do, vel­ho nave­gador da Ín­dia. Duarte Fer­nan­des era o mestre da nau; e Pan­taleão Vaz, o Cheira-​Din­heiro, seu con­tramestre. De pas­sagem lev­ava vários fi­dal­gos, ofi­ci­ais e sol­da­dos, que iam a servir el-​rei no ul­tra­mar; al­guns mis­sionários da Com­pan­hia de Je­sus e da Or­dem do será­fi­co S. Fran­cis­co; e duas sen­ho­ras de dis­tinção, uma es­posa out­ra fil­ha de Rui da Cun­ha, provi­do com a for­taleza de Cananor.

  Ao pôr-​do-​sol do mes­mo dia da saí­da, já estes nave­gantes não vi­am ter­ra da pá­tria; e en­gol­fan­do-​se nas solidões do oceano procu­ravam o cam­in­ho da fron­dosa il­ha da Madeira.

  Vi­agem de rosas tiver­am, não só até à al­tura de Por­to San­to que enx­er­garam de per­to, e da Madeira que avis­taram ao longe, mas além da il­ha de San­to An­tão, uma das de Cabo Verde, que mar­caram ao cabo da déci­ma oita­va sin­gradu­ra. 

  De­pois começaram-​lhe a dar as tro­voadas de Guiné, e no par­ale­lo da Ser­ra Leoa viu-​se o galeão per­di­do, com os ven­tos fu­riosos e des­en­con­tra­dos que o as­saltaram, com o mar bravio que se lev­an­ta­va em pirâmides, e com raios que caíam em ro­da do navio, fazen­do hor­rív­el es­tron­do, ce­gan­do com o bril­ho dos relâm­pa­gos e ameaçan­do de o in­cen­di­ar. 

  Os tim­oratos já pe­di­am con­fis­são ao capelão da nau, padre Jerón­imo da Con­ceição, e aos de­mais frades pas­sageiros; porém, os home­ns ex­per­imen­ta­dos nas cois