as do mar trataram de me­ter den­tro, primeiro as gáveas, de­pois os pa­pa-​fi­gos, a mezena e a ce­vadeira; ar­ri­aram, co­mo pud­er­am, os mas­taréus; e em ár­vore se­ca, ofer­ecen­do o cadaste à fúria do mar, lá foi cor­ren­do o galeão, a Deus e à ven­tu­ra, ro­ci­ado pelas va­gas, até que abo­nançou a tor­men­ta.

  Seguiram-​se al­guns dias de en­fadon­ha cal­ma na Lin­ha, e afi­nal do­bran­do os abrol­hos, seguiu a nau Enxo­bre­gas, des­vian­do-​se da cos­ta do Brasil, até se in­ternar pe­lo sul den­tro, muito além da lat­itude do Cabo.

  Já um im­per­ti­nente frio en­tra­va com a maru­ja, que mal a deix­ava acud­ir à manobra, quan­do o ven­to vi­rou de feição, para deixar que a nau aproasse ao Cabo da Boa Es­per­ança; vis­to que o capitão, con­tra o reg­imen­to d'el-​rei que­ria ir fun­dear em Moçam­bique, para faz­er ve­ni­aga, em vez de seguir as or­dens que o man­davam ir por fo­ra de Madagás­car.

  En­tra­va já o mês d'Agos­to; o galeão fazia al­gu­ma água pe­los al­tos, não coisa de cuida­do, é ver­dade, mas que o em­baraça­va de puxar com to­do o pano; e o pi­lo­to ques­tion­ava com o so­ta-​pi­lo­to so­bre ter-​se pas­sa­do ou não o Adamas­tor, quan­do as man­gas de ve­lu­do, começan­do a cruzar por so­bre os mas­taréus, vier­am dar teste­munho de que es­tavam além do Cabo. 

  A vista do Cabo Fal­so con­fir­mou no mes­mo dia a ale­gre pre­sunção dos nau­tas. Nesse dia hou­ve mis­sa, ban­quete e dança a bor­do.

  Mas lo­go de­pois, cor­ren­do ao lon­go da cos­ta de Na­tal, caiu tão du­ra re­fre­ga so­bre a nau, e tão súbi­ta, que o mas­tro do tra­que­te, já de si in­cli­na­do para vante, pare­cia quer­er ir bei­jar o gu­rupés; e o con­seguira, se a vela se não ras­gara em mil pedaços. Os mas­tros grande e da mezena, que caíam para ré, con­forme a con­strução do tem­po, quase que se puser­am a pru­mo; e as re­spec­ti­vas ver­gas soltaram de si as ve­las com a vi­olên­cia da bor­ras­ca. O gu­rupés ren­deu, e a ver­ga da ce­vadeira par­tiu pela es­ta­gadu­ra, ou, co­mo ho­je diríamos, pe­lo terço, se é que ain­da há navio que use de ce­vadeira!

  O padre Jerón­imo da Con­ceição acud­iu ao chapitéu da popa, ar­ma­do de um cru­ci­fixo, para ex­or­cis­mar a tem­pes­tade, e os moços de primeira vi­agem, de en­vol­ta com os sol­da­dos bison­hos, se­gu­ran­do-​se às roupetas dos fil­hos de Loy­ola e aos hábitos dos fran­cis­canos, chamavam, voz em gri­ta: «Mis­er­icór­dia!» O capitão, que na­da en­ten­dia de náu­ti­ca, ou­via os con­sel­hos do pi­lo­to e so­ta-​pi­lo­to, mestre, con­tramestre e guardião, e até dos mar­in­heiros que sabi­am tomar a al­tura do Sol, não achan­do meio de con­cil­iar os dis­parata­dos pare­ceres d'estes vel­hos nave­gadores. E a nau ar­fan­do, sem gov­er­no, porque os ti­mo­neiros mal po­di­am sub­ju­gar o leme, ape­sar das va­lentes tal­has que lhe havi­am da­do. 

  A cer­ração era com­ple­ta. O Cheira-​Din­heiro, me­ne­an­do um cal­abre, zurzia de popa à proa os grumetes que não an­davam lestos. Um vel­ho mar­in­heiro que em 1593 vi­ra de per­to a morte no galeão San­to Al­ber­to, en­cal­han­do no pene­do das Fontes, repas­sa­va na mente a triste história d'aque­le naufrá­gio, e os tra­bal­hos que lhe seguiram, su­por­ta­dos en­tão com a cor­agem de mance­bo im­berbe, mas a que o an­cião não re­si­stiria ago­ra; e cria já ou­vir as pan­cadas que o galeão es­ta­va dan­do so­bre o baixio. O pi­lo­to e o so­ta-​pi­lo­to era con­cordes (coisa rara n'aque­les tem­pos!) em que a nau de sua ma­jes­tade es­ta­va mais amar­ra­da, ape­sar de não verem o sol havia três dias e n'es­tas par­agens cor­rerem as águas co­mo sangue, se­gun­do a ex­pressão fa­vorita dos mar­in­heiros.