m ter­mo, man­dou tomar con­tas ao de­spen­seiro, tan­to da agua­da co­mo dos man­ti­men­tos, por um con­sel­ho de ofi­ci­ais e pas­sageiros, as­sim com­pos­to: o príncipe Dom Mar­tin­ho, o so­ta-​pi­lo­to, o mis­sionário do Japão, o Cheira-​Din­heiro e o calafate. Mas qual não foi o ter­ror destes home­ns, e em segui­da de to­da a gente de bor­do, quan­do por to­da a vi­tu­al­ha en­con­traram um bar­ril de bis­coito, já enc­eta­do, e al­gu­mas gu­lodices que o de­spen­seiro reser­va­va para si! Du­pli­ca­do hor­ror, pas­mo, e lo­go de­ses­per­ação, achan­do ape­nas meio tonel de água doce, e es­vazi­ados to­dos os out­ros cas­cos da agua­da!

  E a cal­ma na vela! E água na bom­ba! E a ter­ra dis­tante! Com os paióis e a de­spen­sa vazios! 

  O capitão lançou lo­go um ban­do em que or­de­na­va, que quem quer que tivesse nos seus ca­marins ou be­lich­es al­gu­ma quar­to­la de água, e qual­quer man­ti­men­to, marme­ladas e con­feitos que fos­se, viesse en­tre­gar tu­do sem demo­ra aos cin­co comis­sion­ados, que havi­am es­ta­bele­ci­do a sua ad­min­is­tração jun­to ao cabrestante de ré, en­tre o mas­tro grande e o da mezena. E as­sim se fez; to­dos con­tribuíram para o monte grande, e des­de esse mo­men­to repar­tiu-​se igual­mente o man­ti­men­to e a água, em porções tenuís­si­mas, por quan­tos vin­ham a bor­do. 

  Porém, a úl­ti­ma moin­ha de bo­lacha es­ta­va en­gol­ida, de­pois de co­mi­dos to­dos os ratos, gatos, maca­cos e pas­sar­in­hos que iam no galeão; a úl­ti­ma sede de água fo­ra es­go­ta­da com a que pro­duzi­ra uma co­piosa chu­va de al­gu­mas ho­ras; e as pran­chadas de chum­bo de ar­til­haria, cor­tadas em pedaços, servi­am de úni­co re­frigero àque­las bo­cas es­cal­dadas pela febre…E o ven­to sem chegar!

  Ora pin­ta­va de um la­do, ora apon­ta­va do out­ro, mas nun­ca pas­san­do de ligeira bafagem. Os batéis que re­bo­cavam a nau, pouco a fazi­am adi­antar; nem os mar­in­heiros já tin­ham força para puxar dos re­mos. 

  To­dos se ad­mi­ravam, prin­ci­pal­mente os vel­hos nave­gadores destes mares, de achar tal con­stân­cia de cal­ma em tão grande al­tura, e nes­ta es­tação do ano; e só atribuíam este fenó­meno a cas­ti­go de seus peca­dos. 

  De­pois dias com­ple­tos se pas­saram sem na­da se com­er nem be­ber a bor­do do galeão. Um mar­in­heiro, desvaira­do pela sede, lançou-​se ao mar a afog­ar; out­ro, aguil­hoa­do pela fome, seguiu-​o nas águas para aproveitar o seu cadáver. De­pois ver­ifi­cou-​se na proa uma hor­rív­el ce­na de cani­bal­is­mo! Dis­puta­va-​se às fa­cadas a posse de qual­quer se­van­di ja, que por aca­so se de­sco­bria nas cober­tas e porão!

  A au­tori­dade tin­ha-​se an­ula­do de to­do naque­le mi­cro­cos­mo naval: a fome e a sede fazi­am mais con­tra a dis­ci­plina do que a tor­men­ta e a re­vol­ta! 

  Quan­do, en­fim, uma aragem mais fres­ca e de feição veio gal­va­nizar aque­les cadáveres en­con­trou a jovem chi­ne­sa prostra­da, sem cor nem fala, no seu leito de ag­onia, ten­do de joel­hos a seus pés o ex­tremoso príncipe de Ar­ra­cam, e à cabe­ceira o padre Jerón­imo que lhe lança­va a ab­solvição. 

  Porém, o ven­to re­fres­cou pe­lo sueste, e o galeão fazen­do força de vela, começou a deitar seis mil­has por ho­ra. 

  Era a sal­vação que chega­va! Quase se es­que­ceu a fome... e a sede é que era difí­cil de olvi­dar! 

  Porém, o céu, con­doí­do en­fim dos mesquin­hos nau­tas, man­dou-​lh­es abun­dante chu­va.

  No dia seguinte pescaram al­gum peixe, que foi de­vo­ra­do mes­mo cru! E, fi­nal­mente, no úl­ti­mo de Dezem­bro, avis­taram em dis­tân­cia de quinze mil­has a il­ha dos Ladrões, e tomaram práti­co, man­ti­men­tos e água de uma lo