r­cha chi­ne­sa. 

  No primeiro dia do no­vo ano do Sen­hor, de 1651, an­co­raram a sal­va­men­to no por­to de Macau, dan­do muitas graças a Deus de se acharem fe­liz­mente em ter­ra de ami­gos.

  Tra­tou-​se lo­go de cumprir a promes­sa fei­ta na ocasião da tor­men­ta; e aque­les que po­di­am ar­ras­tar-​se, saíram em ter­ra nes­sa mes­ma tarde, con­duzin­do a gávea prometi­da a Nos­sa Sen­ho­ra da Con­ceição. 

  Es­per­ava-​os na Pra­ia Grande o capitão-​ger­al, os mem­bros do Leal Sena­do, c1erezia, e po­vo da cidade, as­sim cristãos co­mo chins; e toman­do a di­anteira o mis­sionário com a cruz alça­da, pôs-​se a cam­in­ho do tem­plo católi­co, a pe­que­na er­mi­da de S. Lázaro, onde muito de­vota­mente rezaram, com choros de ale­gria, os míseros aven­tureiros. 

  As­sim ter­mi­nou o ter­ceiro ac­to deste medonho dra­ma, com o qual não fi­nal­iza ain­da a acção. No­vas peripé­cias se de­sen­ro­larão ante os ol­hos do leitor, não menos ver­dadeiras e in­ter­es­santes do que as prece­dentes, até ao fa­tal de­sen­lace, a pas­mosa catástrofe do galeão Enxo­bre­gas.

  IV. Tor­na-​vi­agem

  Reina­va a paz em Macau. De­pois dos so­cor­ros mil­itares que havi­am presta­do os habi­tantes ao im­pério Chinês, adquirindo as­sim a com­placên­cia dos man­darins, e já de­sas­som­bra­da a cidade de to­do o re­ceio das in­vasões de holan­deses, que bem es­car­men­ta­dos havi­am si­do em duas ten­ta­ti­vas de con­quista al­guns anos antes, tratavam uni­ca­mente ago­ra os macaens­es da sua labu­tação com­er­cial e não ne­gavam gasal­ha­do a quem quer que ali apor­tasse care­cen­do de pro­tecção e abri­go. 

  Dona Cata­ri­na, a jovem es­posa do príncipe de Ar­ra­cam, não chegara a su­cumbir à fome, à sede e aos tra­bal­hos de to­do o género daque­la hor­rív­el vi­agem, e en­con­trou com seu mari­do to­das as co­mo­di­dades para se resta­bele­cer, sob o tec­to hos­pi­taleiro de um dos vereadores do sena­do de Macau, o vel­ho Tomás Vieira que já fo­ra o ter­ror dos Batavos. 

  O mis­sionário do Japão foi alo­jar-​se com os seus ir­mãos da Com­pan­hia de Je­sus, en­quan­to não seguia a estra­da do martírio; Bastião de Morais foi hospeda­do pe­lo cap­ital-​ger­al; o de­spen­seiro Gil Cor­reia foi re­ce­bido no tron­co pe­lo carcereiro, que lhe fez lançar grossas al­ge­mas se­gun­do a or­dem que re­ce­bera do sena­do; e o resto da trip­ulação da nau con­tin­uou a viv­er a bor­do, sal­vo uma ou out­ra ex­cursão que fazi­am até à Pe­dra da Paciên­cia. 

  O galeão, an­co­ra­do no por­to in­te­ri­or de Macau, cor­ri­gia de no­vo as avarias, seu in­var­iáv­el des­ti­no em to­dos os por­tos que afer­ra­va! 

  Deix­emos porém mo­men­tanea­mente as ribas do mar cu­ja vista talvez já fa­tigue de­mais os nos­sos caros leitores, e cam­in­han­do ter­ra den­tro {não para muito longe, porque o cir­cuito de Macau é as­saz lim­ita­do!} de­mos en­tra­da na op­ulen­ta casa do nos­so Tomás Vieira. 

  Que é is­to! Lá­gri­mas de náufra­gos no por­to de sal­vação! 

  Ah! são choros de ale­gria! 

  Co­mo o fil­ho pródi­go, menos as cul­pas daque­le, a for­mosa Dona Cata­ri­na apare­cera sem ser es­per­ada na casa pa­ter­na. Ape­nas con­tara a sua sin­gela história co­mo a ou­vi­ra em Cochim, de haver si­do ar­rebata­da de Macau por um capitão de navios que a levara à Ín­dia para a faz­er cristã, repetindo o seu prim­iti­vo nome chinês que tro­cara na pia do bap­tismo pe­lo de Cata­ri­na, er­gueu-​se o an­cião, o bom Vieira, aper­tan­do-​a nos braços e ex­cla­man­do: 

  -Aton! Aton é o teu nome? Min­ha queri­da fil­ha per­di­da!

  E uma tan­car de meia idade, com seu al­to pen­tea­do e sua caba­ia azul, saiu ao mes­mo tem­po de