 um aposen­to in­te­ri­or, e lançan­do-​se aos pés da jovem chi­ne­sa, bradou tam­bém bei­jan­do-​lhe as mãos: 

  -Aton! Min­ha fil­ha acha­da! 

  Dom Mar­tin­ho con­tem­pla­va em re­li­gioso silên­cio este be­lo quadro de família. 

  Tão in­es­per­ado en­con­tro pare­cerá fan­ta­sia de nov­el­eiro, mas não é; o ca­so pas­sou-​se as­sim co­mo es­ta­mos con­tan­do. 

  De­pois dos abraços e bei­jos cor­re­spon­dentes a tão fe­liz acha­do, o hon­ra­do Vieira tra­tou de re­con­hecer legal­mente Aton co­mo sua fil­ha, e des­ti­nou lo­go o dia em que havia de casar com Athoy, a mãe de Dona Cata­ri­na para que es­ta se não en­ver­gonhas­se do seu nasci­men­to e fos­se sua nat­ural e legí­ti­ma herdeira. A chi­na mãe já era cristã, mas não mu­dara ain­da o tra­jo na­cional pe­lo eu­ropeu, o que fez ago­ra, para ir à igre­ja con­trair o sacra­men­to do matrimónio, levan­do pela mão a sua Aton, a fil­ha queri­da das suas en­tran­has. 

  A 28 de Fevereiro do mes­mo ano de 1651, es­tando de to­do descar­rega­do o galeão Enxo­bre­gas das pre­ciosas mer­cado­rias que troux­era da Ín­dia, e abar­ro­ta­do de não menos im­por­tante car­ga de sedas, charões e arte­fac­tos de marfim e madrepéro­la, soltou as ve­las ao ven­to (que para aque­la gente era quase sem­pre o ven­to da ad­ver­si­dade!) e largou do por­to de Macau, con­duzin­do de no­vo a seu bor­do os côn­juges Dom Mar­tin­ho e Dona Cata­ri­na, que com muitas lá­gri­mas di­ri­giam um der­radeiro ol­har para a cidade donde lh­es ace­navam com os lenços o bom Vieira e sua es­posa, de­se­jan­do-​lh­es de coração a boa vi­agem. 

  Se por um la­do a jovem Aton ia sat­is­fei­ta por haver en­con­tra­do a sua família e por pai um hon­ra­do com­er­ciante, por out­ro la­do sen­tia a dor da ausên­cia de­pois de tão breve es­ta­da no lar pa­ter­no. Tam­bém Dom Mar­tin­ho de­se­ja­va ir ver as pla­gas onde nascera, porém o reino de Ar­ra­cam fi­ca­va fo­ra da ro­ta da nau que volta­va di­rec­ta­mente a Goa. En­tre tristes e sat­is­feitos, os dois es­posos con­tem­plavam em silên­cio a am­plidão dos mares, quan­do a noite es­ten­deu so­bre eles o seu funéreo crepe; e in­vo­can­do a Virgem:

  Ave, maris stel­la!

  foram re­pousar, con­fi­ados na sua pro­tecção.

  Com al­ter­na­ti­vas de mel­hor e pi­or tem­po, veio o galeão nave­gan­do por aque­le am­plo mar da Chi­na; quase sem­pre com ven­to do quad­rante nordeste e va­gal­hão, até avis­tar a Pe­dra Bran­ca e pen­etrar no es­tre­ito de Mala­ca. 

  Daí por di­ante foi apan­han­do al­gu­mas sama­tras de pouco pe­so, e com mais ou menos pano sem­pre à trin­ca por achar ven­tos es­cas­sos, gal­gou fi­nal­mente o Pu­lo Pinão. 

  A nave­gação que con­tin­uou a faz­er até Goa, foi aprox­imada­mente pelas par­agens da ida para Macau; e sem notáv­el aci­dente surgiu no an­co­radouro da Agua­da a 12 de Abril do mes­mo ano. 

  De­sem­bar­cou ali grande parte do car­rega­men­to da Chi­na, e não care­cen­do de con­ser­to al­gum o galeão (coisa rara!) abar­ro­taram-​lhe o porão com três mil quin­tais de pi­men­ta, e fi­cou de no­vo lestes a nave­gar. 

  Por ess­es dias chegou a Goa a notí­cia de que o conde de Aveiras, João da Sil­va Telo de Mene­ses, que volta­va se­gun­da vez à Ín­dia co­mo vice-​rei, havia fale­ci­do na vi­agem; e, achan­do-​se Dom Fil­ipe Mas­caren­has a gov­ernar aque­le es­ta­do des­de 30 de Dezem­bro de 1645 e já muito alque­bra­do pela doença, re­solveu abrir a via de sucessão, que vin­ha do reino com o no­vo vi­zo-​rei, onde se acharam des­ig­na­dos para lhe suced­er na gov­er­nança o arce­bis­po-​pri­maz do Ori­ente, Dom Fran­cis­co dos Már­tires, e dois fi­dal­gos que servi­am na Ín­dia, An­tónio d