is­to que os holan­deses se havi­am apoder­ado da Agua­da de Sal­dan­ha, de­pois que o Enxo­bre­gas por ali havia pas­sa­do na vin­da para a Ín­dia. 

  Com este ven­daval, al­gu­ma água na bom­ba e pe­que­nas avarias na mas­treação; a mais im­por­tante foi ren­der o gu­rupés pe­lo pa­pa-​mosca, mas lá o ata­man­car­am co­mo pud­er­am. Na for­ma do cos­tume de to­das as naus da Ín­dia, al­ijou-​se ao mar mui­ta car­ga e o navio fi­cou mais boeiro e doce de leme. 

  En­fim, a 16 de Jul­ho, ao meio-​dia, achavam-​se na lat­itude das il­has de Tristão da Cun­ha, porém muito a leste; daí soltaram o ru­mo di­re­ito a Cabo Ne­gro. 

  En­quan­to se aprox­ima lenta­mente o galeão dos sossega­dos mares trop­icais, va­mos nós in­for­mar o leitor do que se pas­sa naque­le recin­to tão acan­hado para tan­ta gente, e que tan­tos peca­dos al­ber­ga­va! 

  Ninguém es­tá con­tente com a sua sorte neste mun­do de enganos e tribu­lações. O man­da­men­to da lei de Deus que proíbe de­se­jar a mul­her do próx­imo, foi du­pla­mente vi­ola­do a bor­do do galeão com públi­co es­cân­da­lo, e quem sabe tam­bém quan­tas vezes o foi em par­tic­ular! Porém o cas­ti­go do Sen­hor severo e pron­to, não se fez es­per­ar, caiu lo­go so­bre a cabeça dos pecadores co­mo uma es­pa­da de justiça, apli­can­do-​lh­es a pe­na de Tal­ião. 

  Luís de Brito, que casara por paixão com Dona Madale­na, começou ago­ra a achar mais graça nos ol­hos pe­quenos, mas ne­gros e vivos de Aton, do que no meio ol­har das azu­ladas pupi­las de sua es­posa; mais don­aire no tal­he es­bel­to porém breve de Cata­ri­na, do que na figu­ra al­ta e ma­jestosa da sua con­sorte; mais en­can­to no pez­in­ho acan­hado da chi­ne­sa, do que no pé com­pri­do e es­tre­ito (co­mo o da Vénus anti­ga) da fil­ha de Rui da Cun­ha.

  Mas em com­pen­sação Dom Mar­tin­ho, que de­sposara Cata­ri­na sem nome de família, sem dote, sem pro­tec­tores, cati­va­do uni­ca­mente da sua beleza, tam­bém de­sco­bria ago­ra mais for­mo­sura no ros­to oval de Madale­na do que nas faces proem­inentes da fil­ha do Vieira; mais for­mo­sura nos ca­be­los louros cen­dra­dos da es­posa de Brito do que nas bas­tas ne­gras madeixas da sua própria mul­her; mais mi­mo na al­va cútis da por­tugue­sa do que no gra­cioso moreno da ori­en­tal. 

  E sem se aperce­ber de tal. Madale­na de Brito en­con­tra­va um praz­er no­vo para ela na con­ver­sação do príncipe de Ar­ra­cam, que lhe refe­ria as façan­has cav­aleirosas de seus reais avós, e as próprias no mar e na ter­ra; en­quan­to seu mari­do, des­de que pas­sara a lua-​de-​mel, só lhe fala­va do res­gate do ouro e do marfim, do preço da pi­men­ta e da canela; con­tem­pla­va o ros­to bronzea­do de Dom Mar­tin­ho com to­do o bril­ho do sol ori­en­tal, e mau gra­do seu acha­va-​o mais va­ronil e fran­co do que o do ne­go­ciante-​guer­reiro, out­ro­ra bran­co de neve, mas ho­je amar­ele­ci­do ou antes es­verdea­do pelas febres de Moçam­bique e So­fala; en­fim, las­ti­ma­va no ín­ti­mo do coração aque­le príncipe in­di­ano por haver de­sposa­do a fil­ha de uma tan­car (bar­queira), pois sem­pre ou­vi­ra diz­er a seus par­entes nave­gadores que era aque­la a úl­ti­ma raça das mul­heres chi­ne­sas.

  Ai! Tam­bém Cata­ri­na fazia com­para­ções en­tre Luís e Mar­tin­ho, e não er­am elas na­da fa­voráveis ao seu con­sorte! 

  O orgul­ho do príncipe hu­mil­ha­va a de­scen­dente dos mar­in­heiros tor­na­dos ne­go­ciantes em Macau, ao pas­so que con­sideran­do-​se eu­ropeia por seu pai, sen­tia em si uma cer­ta su­pe­ri­or­idade so­bre o ín­dio, em­bo­ra ele fos­se ne­to de reis. Brito era por­tuguês de sangue puro; e es­ta lem­brança se­duzia Aton, que se sen­tia atraí­da pa