 Pêro Doura­do, que es­ta­va à cadeira. O galeão fi­cou só em gáveas, e de­sem­baraça­do o con­vés das es­co­tas e amuras dos pa­pa-​fi­gos. Em segui­da or­de­nou ban­das de fo­go por um e out­ro bor­do con­tra as naus in­imi­gas, mas es­tas re­spon­di­am-​lhe com out­ras ban­das, e em segui­da fur­tavam-​lhe o costa­do vi­ran­do por d'avante, com o que aproveitavam to­da a sua ar­til­haria, e não re­ce­bi­am em cheio a me­tral­ha dos por­tugue­ses. Ligeiras, com to­do o seu ve­lame largo, ex­ecu­tavam es­ta manobra com presteza, en­quan­to o Enxo­bre­gas ape­nas guina­va a um la­do e a out­ro, com pe­sa­dos movi­men­tos; porém, a guar­da da sua ban­deira es­ta­va con­fi­ada ao braço e ao es­toque do vice-​rei; a de­fe­sa da varan­da e chapitéu da popa a car­go do ex-​capitão de Cananor; pron­tos os primeiros a abor­dar, es­tavam no caste­lo de proa, de es­pa­da na mão, Dom Mar­tin­ho e Luís de Brito. Os out­ros fi­dal­gos con­ser­varam-​se na tol­da, para de­fe­sa daque­le lu­gar e serviço dos guar­da-​lemes. O mestre e o con­tramestre vi­giavam os por­talós; e os artí­fices tapavam os rom­bos que fazia no costa­do a ar­til­haria in­imi­ga, e acu­di­am a atal­har qual­quer in­cên­dio que se atea­va em al­guns dos muitos com­bustíveis de bor­do. 

  Ven­do, porém, o capitão, de­pois de meia ho­ra de com­bate, que o plano dos con­trários era me­ter-​lhe o galeão a pique, sem nun­ca chegarem à abor­dagem, man­dou içar de no­vo as ve­las que amainara, e ain­da me­ter mon­etas; porém um tiro certeiro do in­imi­go cor­tou as os­ta­gas do tra­que­te, e veio abaixo a ver­ga, que se par­tiu em dois pedaços, fi­can­do em­pacha­da a ar­til­haria da proa com a vela e os re­spec­tivos ca­bos. Es­ta­va pois per­di­da a úl­ti­ma es­per­ança de dar caça aos holan­deses.

  A noite, en­tre­tan­to, tin­ha fecha­do de to­do, e a cacim­ba tor­na­va opaca a at­mos­fera; mas os con­tendores ain­da se vi­am, e o capitão for­man­do à pres­sa con­sel­ho com os mais pru­dentes e au­tor­iza­dos ofi­ci­ais e pas­sageiros do galeão, propôs-​lh­es deitar di­re­ito à cos­ta, para reparar a avaria que os ba­ta vos se não chegavam à abor­dagem, e não era pos­sív­el caçá-​los!

  As­sim se re­solveu, e o pi­lo­to man­dou ar­rib­ar para o norte. 

  Não tar­dou que os holan­deses percebessem a manobra; e jul­gan­do que os nos­sos lhe fu­giam por me­do, fiz­er­am força de vela nas suas águas, e em pouco tem­po es­tavam na al­heta do Enxo­bre­gas. 

  En­tão tra­bal­haram de­veras as meias-​es­peras da popa, e com ac­er­to, que um pelouro seu que­brou o gu­rupés da nau que vin­ha mais próx­ima. Deixan­do es­ta para ré, a out­ra nau holan­desa veio pro­lon­gar-​se com o galeão, ten­tan­do, talvez, abor­dá-​lo fi­nal­mente. 

  Porém sucedeu-​lhe um hor­rív­el sin­istro! Ateou-​se-​lhe o fo­go a bor­do com uma rapi­dez e in­ten­si­dade pas­mosas, e em breves in­stantes to­da a nau era chamas! O Enxo­bre­gas deitou à popa ar­rasa­da, para fu­gir do con­tac­to deste in­imi­go, ago­ra perigosís­si­mo; e a sua gente sen­tiu uma temerosa ex­plosão, e ob­ser­vou com es­pan­to faz­er-​se em pedaços o va­lente navio con­trário, ao som dos gri­tos de de­ses­per­ação que soltavam na der­radeira ag­onia os seus trip­ulantes. 

  Os marí­ti­mos são sem­pre gen­erosos. Qual­quer acred­itaria facil­mente que o primeiro movi­men­to do galeão Enxo­bre­gas se­ria di­rigi­do so­bre a nau holan­desa, que com a per­da do gu­rupés, chave da mas­treação, perdera os out­ros mas­tros, fi­can­do rasa, e por­tan­to im­pos­si­bil­ita­da de nave­gar. Se­ria uma con­quista fá­cil. Mas não se tra­tou dis­so, em vista da per­da da out­ra nau; pe­lo con­trário, to­da a gua