ra­da, que nesse ano caiu com imen­sa força so­bre An­go­la, começou a diz­imar a gente da nau, a tal pon­to que, uns mor­tos, out­ros doentes, tiver­am que deixar to­do o car­rego das obras de bor­do aos artí­fices da cidade e gente das lan­chas costeiras. To­davia, o fab­ri­co pro­grediu, Deus sabe co­mo, é ver­dade!, e por mea­dos de Out­ubro es­ta­va a nau apar­el­ha­da, al­ca­troa­da e pin­ta­da. 

  Parece-​nos que o leitor já terá no­ta­do, com de­spraz­er, que aban­donásse­mos por tan­to tem­po as per­son­agens des­ta ve­racís­si­ma cróni­ca por quem, se­gu­ra­mente, mais se in­ter­es­sa. Não é as­sim? 

  É, de­cer­to! Mas não os es­que­ceu o cro­nista... Eles é que dis­sim­ula­ram, os qua­tro adúl­teros, seus pecaminosos de­se­jos, e os crim­inosos planos, até à chega­da a ter­ra. 

  Lo­go que de­sem­bar­caram em Lu­an­da mostraram, to­davia, que não havia es­quec­imen­to de in­júria, nem menos ódio de parte a parte; porém, o vel­ho Mas­caren­has fazia vi­giar de con­tín­uo os dois mance­bos, e Dona Leonor não per­dia de vista as jovens ri­vais. Além dis­to, Madale­na en­fer­mou com o mal da ter­ra, e co­mo o seu es­ta­do da­va sérios cuida­dos, tiver­am ain­da de se reprim­ir' por mais al­gum tem­po os dois im­placáveis in­imi­gos. 

  Aton, a chi­ne­sa nasci­da sob o trópi­co e ha­bit­ua­da a viv­er nos cli­mas não menos ar­dentes da Ín­dia, era talvez a úni­ca pes­soa, das que apor­taram a An­go­la no galeão Enxo­bre­gas, isen­ta do menor ameaço de carneira­da; pe­lo con­trário, es­ta­va nu­tri­da, rosa­da, muito mais for­mosa, en­quan­to a sua ri­val pál­ida, abati­da, se con­sum­ia pre­sa a uma febre lenta mas ter­rív­el. Luís de Brito, o in­gra­to, o in­fiel, es­que­cia a es­posa que ag­oniza­va num leito de dores, para só se lem­brar do seu amor e da sua vin­gança... mas já menos des­ta do que daque­le! Era cav­aleiro e brioso, sim; mas a causa da pro­jec­ta­da vin­gança es­ta­va prestes a sumir-​se, e o al­vo do amor ca­da vez mais be­lo, mais es­plên­di­do de atrac­tivos! 

  Dom Mar­tin­ho é que es­ta­va mais do que nun­ca em­pen­hado em ar­ran­car a vi­da ao fi­dal­go por­tuguês, porque a sua paixão por Madale­na es­fri­ara, ven­do-​a no leito da morte, sem cor, sem fala, sem movi­men­to -sem­pre era amor de um ín­dio! -e volta­va de no­vo a ado­rar a ul­tra­ja­da es­posa, que o re­pelia com de­spre­zo, e ama­va ter­na­mente o quase viú­vo da sua ri­val. 

  A febre do amor e da vin­gança, jun­ta à febre endémi­ca do país, havia prostra­do tam­bém no leito os dois cav­aleiros, quan­do Madale­na deu o úl­ti­mo sus­piro. 

  A quem achar pro­saica es­ta morte da fil­ha de Rui da Cun­ha, lem­braremos que não foi mais poéti­ca a do apaixon­ado po­eta da Meni­na e Moça, que tam­bém se fi­nou da carneira­da em S. Jorge da Mi­na. 

  Rui da Cun­ha e Leonor, de­ses­per­ados pela morte da sua fil­ha queri­da, in­staram com o gov­er­nador de An­go­la para que obri­gasse a ficar na ter­ra o que eles chamavam as­sas­si­no de sua fil­ha; porém aque­le, ape­sar de ami­go vel­ho da família Cun­ha, só lhe prom­eteu cumprir os seus de­se­jos, no ca­so que Luís de Brito desse al­gum pre­tex­to para se faz­er tal vi­olên­cia. 

  O pre­tex­to, e grave, não se fez es­per­ar por parte do re­cente viú­vo. Nas vésperas da par­ti­da do galeão, e achan­do-​se já resta­bele­ci­do das febres que sofr­era, en­con­trou no largo do Palá­cio o seu ri­val e a sua amante, que vin­ham de vis­itar o gov­er­nador; e fu­rioso de ciúme, de rai­va, acometi­do de súbito delírio, ar­remes­sa-​se a Dom Mar­in­ho, sep­ara-​o da es­posa, ar­ran­ca-​lhe a gor­ra, ras­ga-​lhe o peitil­ho, e sacode-​o pelas pon­tas de seus com­pri­dos bigodes! 
