

  Is­to foi rápi­do co­mo o pen­sa­men­to, e por­tan­to im­pos­sív­el de pr­ev­er e de evi­tar. 

  O gov­er­nador, que es­ta­va no bal­cão cen­tral do palá­cio, gri­tou para a sua guar­da que pren­desse o agres­sor; e antes que Dom Mar­tin­ho tivesse tem­po de de­sem­bain­har a es­pa­da, es­ta­va Luís de Brito mani­eta­do e in­ter­pun­ha-​se en­tre am­bos uma bar­reira de cor­pos hu­manos. 

  -Sangue! Sangue! -bra­da­va o príncipe ín­dio, de es­pa­da em pun­ho, di­ante das janelas do palá­cio. 

  -Justiça se fará! -re­spon­deu en­er­gi­ca­mente o gov­er­nador.

  A mo­da dos du­elos já tin­ha acaba­do nesse tem­po en­tre os por­tugue­ses; e nun­ca mais voltou, a sério, até ho­je. Deus lou­va­do! 

  Co­mo se vê es­ta­va acha­do o pre­tex­to e mais do que pre­tex­to, para reter em An­go­la a Luís de Brito. Rui da Cun­ha e sua es­posa cri­am haver vin­ga­do a morte de uma fil­ha queri­da; e pos­to que en­fer­mos, co­mo a maior parte dos seus com­pan­heiros de vi­agem, em­bar­caram mais sat­is­feitos do que o fari­am a par daque­le odi­ado gen­ro. 

  Dom Mar­tin­ho é que não tornou a ver um sor­riso nos lábios de sua es­posa. Ca­da vez mais fria para com ele, a chi­ne­sa, que es­capara à carneira­da, não evi­tou o spleen (co­mo ho­je se diria) e tornou-​se quase uma es­tá­tua. Ao príncipe, in­juri­ado pe­lo ri­val e de­spreza­do pela mul­her, lem­brou-​lhe o suicí­dio, mas esse meio ain­da não era en­tão mo­da tam­bém! Quem es­capou à febre, em­bar­cou por fim no galeão, em dia de Fi­na­dos, 2 de Novem­bro de 1651, mas quase to­da a gente mais para mor­rer do que para tra­bal­har! Quan­to a Luís de Brito, se­gun­do dizia o gov­er­nador, iria dar um pas­seio, pouco higiéni­co, pelas mar­gens do Cuan­za e de­mor­ar-​se em Mas­sangano por al­gum tem­po, onde provavel­mente se fi­nar­ia de doença.

  Postas as ân­co­ras em cima, soltas as ve­las e dan­do e re­ceben­do o cos­tu­ma­do Boa vi­agem, lá se foram os nau­tas afa­stan­do de Lu­an­da no mal­fada­do galeão Enxo­bre­gas, que sin­gra­va qua­tro a cin­co mil­has por ho­ra, aproan­do ao nor-​noroeste e noroeste, com ven­to largo do quad­rante su­doeste, e amu­ra a bom­bor­do. 

  À vista da il­ha de As­cen­são lançaram ao mar com to­das as solenidades mil­itares e re­li­giosas o cadáver do vel­ho Dom Fil­ipe de Mas­caren­has, a quem Deus des­ti­nara que não tor­nasse a ver a pá­tria, de­pois de seis anos de ausên­cia! Mel­hor foi as­sim que evi­tou os tra­bal­hos que ain­da es­tavam reser­va­dos para os seus com­pan­heiros de vi­agem. 

  Até ao Equador tiver­am bom tem­po e ven­to na vela; mas aí começaram-​lhe as cal­mas, de­pois as tro­voadas; e quan­do prin­cip­iavam a con­va­lescer das febres de An­go­la que apo­drecia nos tonéis, a pon­to de faz­er al­gu­mas ví­ti­mas e deixar muitos es­tropi­ados. 

  Quan­do chegaram pela al­tura de Cabo Verde, já não havia a bor­do mais do que cen­to e dez al­mas, mas nem cin­quen­ta cor­pos em es­ta­do de su­portarem as fadi­gas dum tem­po­ral ou dum com­bate! 

  Nes­tas tristes cir­cun­stân­cias se aven­tu­ravam, no rig­or do In­ver­no, a de­man­dar o pro­celoso mar dos Açores, quase sem­pre saltea­do de naus de hereges ou de in­fiéis! 

  Que valen­tias se prati­cam cá em ter­ra, com­paráveis a es­tas temeri­dades navais? 

  Vereis o resto. 

  VI. Catástrofe 

  O mar dos Açores não afron­tou o galeão, nem os pi­ratas do Norte o in­sul­taram naque­las par­agens, pouco se­guras en­tão. 

  Já as il­has fi­cavam pela popa de­pois de dez sin­graduras, e os pi­lo­tos se fazi­am com a cos­ta de Por­tu­gal, quan­do ao anoite­cer do dia 13 de Janeiro de 1652, a gente do Enxo­bre­gas viu com as­som­bro e ter­ror um cor­po lu­mi