

  A água cres­cia no porão, e começa­va a in­vadir a cober­ta. As bom­bas, meio en­tup­idas, não lhe davam vazão, ape­sar de tra­bal­harem sem des­can­so, to­can­do a elas os próprios fi­dal­gos, e mais gente graú­da que ia a bor­do. Os es­cravos pas­savam de con­tín­uo gamotes cheios de água do porão para a tol­da, a qual volta­va ao oceano d'onde viera.

  A situ­ação tor­na­va-​se de mo­men­to para mo­men­to mais as­sus­ta­do­ra. Não ob­stante a fal­ta das ve­las, que pode­ri­am faz­er pen­dor ao navio se fos­sem largas, o galeão adornou a es­ti­bor­do, sor­ven­do um grande mar, com o que au­men­tou a des­or­dem e ter­ror a bor­do.

  Novos gri­tos de aflição ecoaram pelas amu­radas do Enxo­bre­gas; novos bra­dos de mis­er­icór­dia subi­ram ao céu, en­tre o ful­gor dos relâm­pa­gos, ao es­tampi­do dos raios, con­tra tor­rentes de chu­va no meio da es­curidão da noite. 

  -Al­ija! Al­ija tu­do ao mar! -bramou do chapitéu de proa o mestre Fer­nan­des. 

  E a maru­ja acud­iu ime­di­ata­mente a ex­ecu­tar a or­dem de sal­vação. Foi uma safa-​ras­ca­da! Ri­cos es­to­fos, trem de ar­til­haria, baús de sen­hores, caixas de mar­in­heiros, foram de com­pan­hia para o in­comen­su­ráv­el abis­mo do oceano; e tal era a pres­sa que o capelão do navio lançou por de­scui­do ao mar o seu Bre­viário.

  O capitão-​mor par­tiu os ócu­los, fi­can­do, co­mo dizem os marí­ti­mos, a ver navios. O pi­lo­to, ape­sar de ser um vel­ho lobo do mar, perdeu a tra­mon­tana; e se não fo­ra a cor­agem es­tói­ca dos ofi­ci­ais de proa, feito era da nau d'el-​rei que não tornar­ia endi­re­itar-​se.

  Foi Deus servi­do, porém, guardar estes pecadores para out­ras tribu­lações, e não lh­es acabar lo­go ali com a mesquin­ha ex­istên­cia. Um je­suí­ta, que ia mis­sion­ar no Japão, tra­tou de con­fes­sar em públi­co os que pre­tendi­am a ab­solvição; e tão grande foi o número de crimes e er­ros que os pen­itentes man­ifes­taram, que começou a cla­mar: 

  -Este tem­po­ral é cas­ti­go de Deus con­tra os re­prova­dos que vão a bor­do da nau e os jus­tos pa­garão, co­mo se fos­sem pecadores, pela má com­pan­hia em que se acham! 

  As­sim pas­sou es­ta noite de ag­onia, sem luzir no tope o es­per­ançoso lume de san­tel­mo. E quan­do alvore­ceu o no­vo dia, se bem que o mar es­tivesse mais apla­ca­do, e menos fu­rioso o ven­to, enx­er­gavam-​se mel­hor as avarias da em­bar­cação, e à clar­idade do sol de­sen­ga­naram-​se de que não es­tavam em prox­im­idade de ter­ra, pois que a nen­hum ru­mo se avis­ta­va. 

  En­tão prin­ci­pi­ou uma ce­na de out­ro género, não pro­movi­da já pela na­tureza, mas pe­los home­ns, e talvez mais hor­ro­rosa ain­da. Declarou-​se a in­sub­or­di­nação nos mos­queteiros que iam a servir na Ín­dia, e o me­do dos peri­gos do mar ar­ras­tou-​os a tornarem ain­da maiores ess­es temerosos peri­gos. 

  Quan­do a tem­pes­tade já começa­va a abo­nançar, e que se po­dia ap­re­sen­tar ao ven­to um bol­so do tra­que­te, ar­maram-​se al­guns sol­da­dos, e in­vadin­do o chapitéu da popa, in­ti­maram o capitão da nau para que man­dasse ar­rib­ar a ter­ra. 

  De­balde o pi­lo­to lh­es ex­pli­ca­va que não tin­ha pe­lo través nen­hum por­to onde pudessem reparar as avarias da vi­agem, o que só pode­ria con­seguir em Moçam­bique, a cu­jo ru­mo nave­gavam; a es­túp­ida sol­dadesca, coad­ju­va­da por al­guns maru­jos de má morte, gri­ta­va ca­da vez mais al­to: 

  -Va­mos para ter­ra! Aproe­mos a ter­ra! 

  Rui da Cun­ha, o capitão de Cananor, pre­tendeu im­por-​lh­es re­speito; mas não o aten­der­am. Sua es­posa, Dona Leonor, ofer­eceu-​lh­es as jóias que lh­es restavam de­pois do al­ija­men­to, e na­da con­seguiu. A